Drama da Palavra ou Drama de Um Corpo

Se tivesse que falar do amor, falaria do amor do Universo por mim… da benevolência que Ele tem em relação a mim… porque Ele sabe quem eu sou e espera. Aceita-me onde eu estou. Não há amor maior que este… sei que me falta cumprir-me, mesmo que eu já seja completa… mas falta-me cumprir a minha completeza na matéria… talvez não precise e seja meta física, mas há algo que ainda me trava… há algo muito grande em mim, algo a que o ego resiste… há névoa que pede costura nas minhas palavras, no que eu digo… sei que há algo maior para dizer, sei que as palavras podem mais, que a expressão perfeita mora em mim, mas há muito barulho depois da palavra… é por isso que não me sento para escrever… escrevo para me sentar, que é ouvir melhor. O ato de escrever, que é ouvir, é primário.

Ouço coisas, sinto coisas, que não sei escrever. Este é o drama da palavra em mim. Todas as outras coisas têm propósito, escrever, que é ouvir, não. Escrever é o propósito consumado de ouvir e é por isso que luto, choro, me contorço ao escrever… porque fico aquém do que quero dizer, das realidades tríade que me habitam…talvez, quando desistir de lhes chegar elas venham. Os processos de iluminação pelas palavras são sempre mais leves em mim, mais ternos.

(Este texto já acabou… mas sobre escrever… sento-me para dar aulas, sento-me para gravar… mas as palavras, as palavras são a realidade primeira… elas vêm, depois eu submeto-me a elas… não me sento para que as palavras venham… não as convido… elas assaltam-me e eu curvo-me. É um processo completamente diferente da ordem material… tudo o resto eu faço porque gosto, mas posso adiar… as palavra não. Hesito quanto à oratória… também começo o discurso primeiro… mas o que toma, o que me toma, o que me subjuga, o que faz amor comigo, me esbofeteia, me dilacera e me salva… a Palavra.)

Chateio-me, porque não lhe consigo chegar, não consigo dizer como eu a sinto, como ela me vem, há uma realidade antes dela, que me dói, que me afeta, que me é… e eu não consigo dizer. É por isso que quando a palavra vem, não podemos adiar, não podemos fugir… a verdade está lá e é irresistível. Mas depois, depois eu não chego para a dizer. Drama da palavra ou de um corpo que escreve?

#ElasDoAvesso

Márcia Aires Augusto

 

Acabo e vem “Tens o mundo a teus pés, à espera que o empurres”… porque é isto, escrever é ter o mundo aos pés, mas não saber andar nele de pé – “Alguém que não sabes ser”. Mas no fim, como irremediavelmente tinha de ser, o Universo salva-me e diz

“Que te faz correr tão rápido/ Que te faz viver assim
Não tenhas pressa/ De encontrar a rota certa
Do destino que te espera/ Lá ao longe”

Love,

Márcia ou o nome que estento hoje.

 

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