Sobre “Adeus” de António Lobo Antunes

Hoje, arrastei-me para a secretária para dar uma aula de heteronímia pessoana, mas o tempo atropelou-nos e, antes disso, resolvemos um exame (2013) onde figura esta obra-prima, assinada por António Lobo Antunes… li-o antes da aluna chegar, como que num augúrio qualquer de que ia chorar… no entrelaçado das frases, algo me ia levar para o profundo mistério onírico que é estar vivo. Poucas coisas nos fazem sentir tão vivos como chorar… como sentir que há uma emoção tão forte, tão leve, ao mesmo tempo, como esta, que o meu corpo não aguenta… não aguenta que as palavras sejam tão perfeitas ao ponto de dizer em lágrimas quem somos… é esse o mistério fantasmagórico e pesado de qualquer escritor… trazer nas palavras a dor e a liberdade… uma palavra para ser certa tem esse verso da dor e o reverso que é conduzir-nos à libertação da dor. Nenhum instrumento que não a arte nos traz isso de uma forma tão orquestrada, tão perfeita, tão consequente, tão coerente… que digo? Tão de Deus? Talvez o Cosmos nos resolva isso, isso de sentir dor e liberdade ao mesmo tempo… para mim são as palavras… as palavras doem-me, corroem-me com a liberdade de uma música que me chega aos ossos, me parte para me construir de novo depois. Se tivesse que agradecer por alguma coisa na vida – que tenho muitas, mas não tivesse tempo para mais -, agradeceria às palavras, aos textos como os de @António Lobo Antunes, que me lembram de que estou viva, que é um milagre de barulho calmo no peito isto de eu estar viva. Se quisesse, e sempre que quis, precisei, arranjar força, propósito para viver – porque eles também me falham, às vezes, nas manhãs -, socorrer-me-ia das palavras.

Continuar seria desonrar-me. As palavras já foram e eu só seria errada nisto de continuar.

O texto que trouxe a urgência das palavras foi o “Adeus” de António Loboa Antunes e pode ser lido aqui.  Um excerto que, particularmente, me dói e me salva como a verdade, segue abaixo.

“Pelo teu amor dói-me o ar

o coração e o chapéu.

Isto, aparentemente, não significa nada e, no entanto, faz-nos vibrar como cordas. Julgo que, até hoje, foi Pitágoras quem mais se aproximou da compreensão visceral da criação. A gente lê-o, sente-o a um pequeno passo da solução e dá fé que esse pequeno passo nunca será esboçado porque não é possível avançar.

O meu trabalho está praticamente terminado. O resto fica por vossa conta e eu estarei muito longe já. É inevitável. Governem-se, se forem capazes, com a chave que vos deixo, se é que ela existe, ou não existe, ou existem várias, ou existem muitas, mudando constantemente. De cada vez, por exemplo, que oiço um quarteto de Beethoven oiço música nova. Como se pode agarrar, digam-me lá, o que constantemente muda?”

Obrigada, António, obrigada entidades que assinas.

<3

#ElasDoAvesso

Márcia Aires Augusto

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