Sarabande em Dó

Dor de mim (…) que me corrói.

O que importa que me olhem? Talvez importe o momento em que me doem a Sarabande, Handel e tudo o que já não é verdade.

Tenho saudades de mim, íssima, íssima saudade, em intertextualidade perdoada com Pessoa. Solidão de mim, quando já só importa Ser. Só eu. E eu não digo. Não sei dizer Amor… e onde está a riqueza do mundo? A verdade cósmica que me dói?… que me adia… me manda para as mesas dos restaurantes, mas sozinha… e eu… profundamente eu comigo. As extraordinárias perguntas que se repetem chegam sempre a este chão agora… onde me engulo… onde sei que só a Verdade me pode salvar. Onde estou? De onde vim? Por que sou? Porquê eu? Porquê aqui? Morro-me aos poucos, sempre mais um bocadinho. Morro para compreender. Quem sou? Por que sou? Doem-me as certezas e tudo o que já não é.

(…)

Sento-me. Há um homem antes disso… um tablet e uma mulher que os separa. Dói-me a vida. Dói-me a profunda solidão de estar viva. De estar aqui agora… com quem eu não sei Quem sou, aquele que me falta, Aquele a quem eu não sei como chegar. E saber que Ele está aqui, latente a ser… e eu não sei ser Quem eu sou.

(Olho e vejo arroz de tamboril na lista… lembra-me de ti. O passado dói, porque o agarrei…. há sempre algo que morre lá connosco. É por isso que me Morro.)

Sou sempre a estranha do restaurante. A que janta sozinha e a que escreve enquanto espera. Schubert agora, devo-lhes séculos de amizade, aos clássicos.

Dói-me estar sozinha, porque já ninguém chega. Já ninguém é suficientemente ilusório para antídoto. Dói-me estar viva agora.Mesmo que ame estar viva e esta dor de mim perdida – é no caos que se encontra o Cosmos… e este oxímoro anismista de mim.

Só não sei quem sou. Pelo menos, sei pedir o que quero, a comida que quero, o vinho que quero. Sou um animal crescido.

Estive com o A. Foi bom revê-lo… bonito, refeito (e nós refeitos de nós)…. cheio de certezas que não são dele, mas de uma genuinidade que me fez lembrar de porquê que o amei – que o amo. Não se deixa de amar porque os corpos se soltam. Puro… em gestos e de braços no ar. Ria-se com os braços. Como hoje.

Chega o Grão Vasco e eu sou eu. Mais verdadeira, mais cheia de mim. Não sei, pelo menos sou decidida. Chateia-me este restaurante estar cheio de gente. De gente tracidional… que trocava a minha solidão pela mentira das mesas cheias. Mas, não somos todos o Mesmo? Teoria doentia da Separação.

O A. disse-me hoje, e bem, que me notava mais parada nos textos… mais voltada para as terapias… e é verdade. Só escrevo quando tenho falta de ar.

Sou para as palavras como a maioria de nós é para Deus. Só as invoco, quando já não aguento mais. Quando os grumos são demasiados na traqueia.

Mas, dizia-lhe… por causa disso, não há um texto de que não goste. Nunca escrevi para cumprir calendário. Tenho um romance que demorará anos a ser terminado, sei disso… mas só lhe volto, quando já não aguento… é como quando fazemos amor e estamos longe da pessoa… Assim é com os livros. Talvez esteja errada e reconsidere isto tudo. Mas escrever é o ato de me tornar sagrada. E mesmo que sagrada, eu não sei sei ser isso todos os dias, a todas as horas. Um dia, talvez.

Sou a Verdade… não me importo, sequer, sobre como transcrever. O que for percebido é para ser percebido, o que não é, é porque foi para ser percebido na minha mente, no momento de escrever. (como agora)

(…)

Não se pode ser o que já não se é. Ou o que se foi. Posso ser algo diferente… mais verdadeiro, com menos defesas, mais livre.

#ElasDoAvesso

Márcia Aires Augusto

(Termino este texto e és tu quem se despede de mim. Até um dia. Termina também o Noturno Opus 9 de Chopin. Ensino tanta vez o número 9… o número cíclico, de um estado de vida que finda para que o novo recomece. Assim é.)

 


Subscreve o meu canal no Youtube

conhece o livro “Elas do Avesso” aqui Ou compra diretamente no botão abaixo

Sobre o corpo… escondemos de mais aquilo que é belo e mostramos em demasia os atributos da psique magoada… a Vergonha, o Medo, a Vaidade… Mostremos mais o que é belo e tratemos mais do eu animal… é ele que está mal, não é o corpo. Love, Márcia

Partilhar
0

5 thoughts on “Sarabande em Dó

  1. Kara says:

    Hello! I could have sworn I’ve been to this site before but
    after browsing through some of the post I realized it’s
    new to me. Nonetheless, I’m definitely happy I found it
    and I’ll be bookmarking and checking back often!

Responder a Maug Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *