Clipsera (início de um romance)

(…)

Abriu a porta… era uma porta normal, com a maçaneta gasta, baça pelos milénios… Deus não lhe dava para arranjar aquilo… tinha muito que fazer e, a bem dizer, a porta funcionava, abria quando queriam, entrar e Clipsera entrou.

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… tinham asas e davam-lhe a mão e, às vezes, abraços. Clipsera, nesse dia, pediu para ir a outras galáxias… e viu um género de pessoas… verdes, não sabe… ou da cor humana, mas com formas diferentes… de nariz que era a boca e coisas assim, que agora não conseguia precisar – Clipsera não podia lembrar-se de tudo. Mas lembrava-se do mar… daquele mar… lilás, brilhante… imenso, cor de gelado de verão… tudo era cor de verão… as borboletas e os pássaros (esses não mudavam nas galáxias, ou Clipsera não sabia vê-los de outra forma) – seria o super-guerreiro lilás deste planeta? Pois que o mar era da cor da sua ausência de pele… não sabia. Poderia perguntar-lhe, quando ele voltasse… mas ele não era de muitas conversas… rachou o céu e só lhe disse uma frase, recordava-se.

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Clipsera não sabia que a madeira tinha barulho… a respirar, a madeira… era silenciosa, calma, castanha e bonita a respirar… então, começou a olhar com cuidado os puxadores… velhos, como a porta… começou a ver que estava lá qualquer coisa… eram os olhos… a menina do olho, chamava-lhe. E em baixo, havia uma boca… desenhada e gasta pelo tempo, serena… pousada, a boca, na penúltima gaveta da cómoda… então, começou a olhar e viu que era tudo, tudo tinha olhos e boca…

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Clipsera não ficava sempre ou não ficou para sempre a falar com Deus… Clipsera voltou várias vezes e várias vezes ficou na Terra também… mas Deus nunca mais a deixou em paz…

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. Foi aí também que lhe apareceu Kant, sob uma forma que agora não consegue precisar… não era um homem, era uma ideia com uma forma que lhe sugeria que ele estava a ali, pareceu-lhe até que ele empurrou os óculos para os olhos, mas isso devia ser ela a querer vê-lo humano… que lhe disse, Vá, não te preocupes… aquilo é tudo o que é humano, é mais do mesmo… mas eu escrevi complicado… e são verdades que estão no teu adn… vais saber. Não sonhes mais comigo, por favor…

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Clipsera sempre perguntou onde poderia estar, onde estava de facto… cá ou lá (cá ou lá, talvez, sejam só uns determinativos da mente, paragens escolhidas da mente) não sabia. Às vezes, via patos e gaivotas com borboletas em renda e seda no bico… o bico era uma borboleta…uma vez era uma gaivotruz… uma gaivota arraçada de avestruz, com a borboleta  branca no bico, pousou-se-lhe no pescoço… Clipsera arrancou-a do pescoço, mas sentiu que perdeu conforto… um calor qualquer na garganta, que não era mais gaiola…

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condenava-a à asfixia da existência… confinava-a a ser o que devia… era detentora da verdade, mas não conhecia verdade nenhuma… Clipsera acabava sempre por voltar… mas era difícil, quando as duas lhe digladiavam o corpo… Clipsera haveria de a vencer, que é como quem diz, amar Clepsidra o suficiente para que ela se juntasse… porque tudo o que Clepsidra queria… era ser amada… e Calipso poderia ajudar nisso.

Também quando Clipsera ia lá em cima… atravessava um mar… o mar onde, possivelmente, deixava o relógio antes de voltar à Terra… era como que o ponto de passagem, ou ponte de água, se quiséssemos. É que em cima do céu que não vemos, há um mar que separa… é lá que Clipsera se senta e molha os pés… tira férias do mundo… a olhá-lo de cima, de onde deve ser olhado… sem tiques de superioridade, ainda que de grandeza… só a olhar… a saber que ela era maior do que o Mundo… Quando ela Era.

Calipso foi embora. Clipsera renasceu. Ou renasce a cada dia de luto. Renascemos sempre no luto. Clipsera não sabe como recomeçar este livro. Nunca se sabe. Mas falar sobre isso pode ajudar. É que perde-se sempre algo, quando se confunde quem se é com o que foi. E só podemos ser agora.

Clipsera voltou às viagens… queria voltar, pelo menos. Mas, desta vez, elas aconteciam de um modo mais consciente… digamos que havia mundos no mundo, sem que Clipsera atravessasse o mar, o que separa a Terra do Espaço. Este era um momento de conflito para ela. Poderia voltar?  Como voltar? Como ser recebida de novo pelo Céu?… melhor ainda, pela própria Terra… no Céu a entrada, a estadia era garantida, mesmo quando achasse que estava fora de lá… perdida, voluntariamente, numa nuvem de pensamento qualquer que, como uma árvore de fruto maldosa e uma serpente mal-intencionada, a mandava do paraíso para fora… Clipsera sabia que estava a salvo. Isso era seguro. Nem de chamadas em cabines escondidas precisava para voltar a Casa.

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Agora tudo era raio de luz por cima das coisas… agora tudo era desenhado a lápis diamante por cima, por cima de tudo… não havia forma que falhasse a este lápis. Bart era desenhado a luz de diamante, Rumina, os candeeiros e até a própria terra… nada, absolutamente nada ficava de fora de uma luz branca que pulsava de dentro para fora… que nos unia… Clipsera ainda não tinha visto tudo perfeitamente unido… uns momentos só em que, às vezes, o mundo se desprendia das formas, era como que uma película de luz, uma essência de luz vivesse por cima das coisas e se lhes desapegasse… subisse da forma para fora, para cima… não sabia o que era e também não tentava agarrar a forma com os olhos, querer conhecê-la mais do que os sentidos, seja lá o que eles fossem agora, talvez sentidos na mesma, mas submetidos à Verdade,

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Agora, percebia que tudo era certo, que tudo estava certo desde o início dos tempos… as dores, o mal de amor, os abusos, os silêncios, as entranhas a ferver, o nojo de si própria e do que vivera algumas vezes… o nojo que agora era amor, profundo amor pelo que tinha vivido… Clipsera terá feito uma vénia a um homem que a abusou. Fê-lo, em amor, profundo amor, sabia que aquele homem era só a forma da dor, do abuso próprio, de tudo o que se fazia a si própria… de todo o desamor, de todos os “achares”, de todos os julgamentos…de tudo aquilo que pensava sobre si própria… o que ela era não era suficiente e, por isso, abusava de si… abusava de sentimentos que não tinha, de bocas que não eram a sua e da sua própria língua… Clipsera tinha abusado de tudo para perceber que nunca, nunca se tinha amado… nunca tinha tão-pouco tocado num raio imaginário de felicidade profunda… era como se isso tudo estivesse na infância, numa infância que perdeu, de que já pouco se lembrava… recordava agora a felicidade fulminante que sentia, daquela felicidade que mata, se soubesse, se achasse ainda que era mortal… Clipsera sabia que não era… Clipsera tinha bastantes milhares de anos de idade, mas a idade no planeta do mar lilás era algo sem significado… sem o significado da Terra… Clipsera poderia ter  10 mil anos e comover-se-ia com uma flor, com um gesto de amor na rua… com um cão que a olha mais profundamente… Clipsera poderia ter 10 mil anos que, às vezes, num corpo, poder-se-ia enganar… demorar a recordar a verdade… e a verdade vinha sempre, sem idade, sob a forma de comoção… comoção com o que vê, com o que vê além dos olhos, das córneas e das cortinas dos sentidos…

(…)

Clipsera tinha uma santa… olhava agora para ela… este era o único objeto a que alguma vez prestara culto, não ao objeto, mas ao que ele significava… desde criança, Clip tinha uma admiração algo misteriosa e incompreensível pela Virgem… houve uma vez que, num passeio a Espanha (esse dia foi extraordinário… por tudo… Clipsera não viajava, ou viajava muito pouco… ir a Espanha com uns 7, 8 anos de idade era um sonho tornado realidade… ver ruas diferentes, falares diferentes, a cor vermelha misturada com o negro e as bolas brancas das socas, as imitações de sevilhanas… tudo era demasiado novo, demasiado bonito para suportar cá dentro…)

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Clipsera sabia, sempre soube, disso nunca desconfiou, que havia algo maior do que ela, do que aquele corpo, do que aquela vida que a dela parecia, mas nunca lhe quis chamar Deus… nunca gostou da catequese, nem do padre, nem das confissões… e tomou a hóstia duas vezes na vida… uma na primeira comunhão, outra num casamento, porque sentiu que tudo aquilo era demasiado bonito para não se devotar à beleza do ritual… o que é certo é que se lembra das duas vezes em que a tomou… do sabor, do que sentiu… nunca foi de rituais porque sim…  tão-só porque sentia… como quando comprou a santa.

Clipsera perdeu a santa, mas nunca a Virgem de perto dela, isso sabe-o bem.

(…)

… Clipsera cometeu o erro que grande parte dos homens comete… o de confundir o culto dos homens com a essência do próprio Deus. Os enganos falantes com a Verdade. Que responsabilidade tinha o Todo, o Deus, a Totalidade, o Divino em nós, que os humanos confundissem Culpa com necessidade de Rendição?… de abandono, de desistirmos de nós próprios, de desistirmos de usurpar o lugar de Deus?… Clipsera vai explicar… “A culpa é do ego… a culpa é um fenómeno magoado, egocentrista que nos diz que, se tivéssemos feito de maneira diferente, as coisas seriam de outra forma. Ora, isso é delusório e mentiroso… enganador, serpentino… eu  nunca poderia fazer nada de diferente, porque eu não sabia fazer diferente… acaso eu consigo falar uma língua, cujas letras, a pronúncia, a sintaxe, a gramática eu ainda não aprendi? Pois é igual com a consciência e o medo. Se eu me sentisse culpada por ainda não saber falar mandarim, rir-se-iam de mim… Clipsera, nasceste na Europa, nunca ouviste mandarim, apesar de a capacidade de o aprenderes estar em ti… mas vais ter de te misturar com o mandarim, aprender as letras, a forma como se expressam, como colocam as letras… vais errar, dizer coisas que não percebem e vais querer expressar coisas que não sabes dizer… tudo isto vos faz sentido, certo? É a mesma coisa com a Culpa. Alguém que violou… será que poderia saber não violar? Teria, naquele momento disponível, ou saberia aceder a um estado de consciência que o acalmasse e o fizesse saber que aquilo o faria infeliz, tão ou mais infeliz do que ao ente violado? Provavelmente, se esta pessoa soubesse aceder a esse estado de consciência, para não dizer de certeza, não o teria feito… O problema, ou a incapacidade, está no facto de, da mesma forma que não lidamos com as letras do mandarim, com as pessoas que falam mandarim, também não llidamos com quem nos ensina amor, com os atos de amor… tudo com o que lidamos, mesmo o amor dos pais, é um amor horizontal, de troca… os pais amam-nos, mas querem ser amados… os pais querem que os façamos felizes… quantos de nós não nascemos porque os pais achavam que iam ser felizes com a nossa vinda? Está tudo errado, o amor está errado… o amor como o vivemos… sociedades, pessoas doentes, que não sabem amar, criarão sujeitos, entes doentes… e é isso. Como curar? A resposta é, talvez, irresoluta para quem não sabe o que É, mas a resposta da cura é o Amor, sempre o Amor.”

O mesmo amor que curou Clipsera e o homem que abusou dela. O mesmo. O que Clipsera deseja a este homem? Muito mais do que felicidade no mundo… que ele descubra quem é, traga a sua luz ao mundo. Hoje, Clipsera quer abraça-lo… e sabe que ele se sente libertado nesse abraço. Clipsera sabe que esse Homem e esse abuso personificaram a relação dela com ela própria. Não estamos a pedir que todos pensem como Clipsera… mas a pedir que olhem para a sua história. Tão-só. Sem este acontecimento de profunda dor, Clipsera não teria tido a urgência de Verdade, pois que teve duas opções… A depressão ou os livros, quer dizer a Filosofia. Clipsera escolheu os segundos…e depois do degrau da Filosofia, é inevitável… Quem é Deus? Se isto é a Verdade, de onde é que ela vem, quem a compôs? É inevitável depois também descobrir que essa entidade vive dentro de nós próprios e emana luz, de dentro para fora, como quando o Bart está revestido de luz, ou a luz se desloca, se eleva das sombras. O que nós não sabemos, porque ninguém nos conta, é que mesmo a Luz está em todo o lado… mesmo não a vendo… que a Luz não é um Universo separado; que na Verdade, no mundo da Verdade, tudo é Uno e o corpo se une à luz para se tornar no que É, para retornar à causa (Luz) e largar o efeito, o veículo (corpo)”.

 

#ClipseraSemCalipso

#ElasDoAvessoProduções (hahahahhaah)

(Este é o início de um Romance que estou a escrever… não me perguntem por ele… vai demorar anos. Ainda assim, partilho umas passagens de que gosto particularmente…  não, não é por acaso… no dia da festa da apresentação do Livro e dos novos caminhos do #ElasDoAvesso, a todos que comprarem o livro neste dia, será oferecido um pdf dos dois primeiros capítulos da obra.)

Márcia


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Márcia Aires Augusto (Autora e aprendiz do ato que é Viver)

Márcia Aires Augusto (Autora e aprendiz do ato que é Viver) Ah! Festa, festa! Venham à apresentação do livro “Elas do Avesso” com este e outros temas, a oferta do início deste romance na íntegra a todos os que comprarem o livro “Elas do Avesso”, música ao vivo, canapés e vinhos. A festa é no dia 11 de fevereiro de 2018, na Casa Allen (à beira da Casa das Artes, Campo Alegre), às 16h00.

 

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