Clipsera (Narciso, Platão e Pocahontas)

(…)

O que foi Narciso? O que foi? Espera aí… não me digas que ainda choras por causa dos Humanos…

Sim, os humanos são maus… levaram só uma ponta da história… agora tenho vergonha de mim…

Clipsera pensava… Narciso ia muito além do mito da paixão por si próprio, de só se ver a si próprio… a doença de nos identificarmos com um corpo, uma espécie de território mental que temos de proteger, levava-o à vergonha de si próprio, ao desejo de se esconder, de não querer ser visto, à sensação de desunião e de indignidade… como se os humanos fossem gozar com ele… Narciso temia a humilhação… que é o que teme o ego… a falta de aprovação dos outros ao ponto de se fazer sentir indigno, abaixo do que deveria ser e representar… Clipsera tinha de lhe mostrar que isso era insensato…

Ó Narciso…há quanto tempo isso vai e tu continuas a dar-lhe… pelo amor de Górgias… sim, de Górgias, que isso só pode ser manha de sofista… então, achas que os humanos ainda pensam nisso?

Sim, continuam a dizer aos outros lá em baixo “És tão narcisista…”… Como achas que me sinto? Às vezes, quero voltar… mas como me iria apresentar na Terra? Saca de um chapéu, aparacem-lhe umas botas que mais faziam lembrar o gato das botas do que propriamente Narciso, ele mesmo, e diz Olá! Sou Narciso, o homem que vocês escolheram só ver de um lado… Narciso, o parvo que se apaixonou por ele próprio…

Ó Narciso, mas tu não achas que és tu que te estás a ver só de um lado? Não percebes que és tu, a forma como te vês que determina a forma como achas que os outros te veem?… não vês que o teu inferno é a prisão do espelho?

Do espelho? Cli… de cada vez que voltas da Terra, vens mais louca… eu estou aqui, não estou no espelho, nem no lago… não entendo…

Narci, Narci… o espelho num sentido figurativo… isto é, tu vês os outros como te vês a ti… os outros são um espelho do que tu achas sobre ti próprio, totó!… Anda cá… E agarrou nele, tirou-lhe o chapéu e fez-lhe aquela coisa na cabeça que sempre quis fazer aos meninos, mas Narciso tinha pelo suficiente para não o magoar… É que Narciso às vezes transformava-se… agora era um coelho, por exemplo… com as orelhas de fora do chapéu… reagia, contudo, como um cão… encostava-se a Clip, dava-lhe o pelo e regozijava-se com a festa.

Acho que te percebo… mas como ver-me de outra maneira? Como ver-me dos dois lados?

Lembrei-me agora de uma música… Aparece Pocahontas e a Árvore sorri, enrugada pelo tempo da madeira….

Ouve o coração e vais entender. Pocahontas não sabia falar a nossa língua…meramente sorria e gesticulava, enquanto tocava no colar que era de sua mãe.

Olha, Narci, vais ter de te oferecer para entender… quero dizer… disponibilizar-te para ires além do medo…. Lá em baixo, eu ensino aos humanos assim… «escreva o que os “outros” lhe fazem – como se existissem outros (gargalhava)… Os humanos, quando querem, são bem inocentes – Continuava… «”A é x” e depois “A devia ser Y.” Agora reescreva “Eu sou x. Eu devia ser Y”.  O eu está para o A, o outro somos nós próprios, percebes isso? (No fundo, somos todos o mesmo, mas ainda não o atingimos, porque ficamos pelo crivo intelectual ou científico; esses martelos humanos da Verdade, percebes?)

Então, espera aí Cli… eu devia dizer “Os humanos escolheram só ver um lado de mim… a vaidade e o egocentrismo, quando eu sou bem mais do que isso. Os humanos deviam ver que eu posso gostar de mim, de me olhar, da minha forma física, mas que eu sirvo também para representar o espelho deles próprios, do que eles não gostam neles próprios… que eu não sou um inútil qualquer… que eu lhes conto que é verdade que sou egoico, mas sirvo para lhes mostrar o que há ainda de errado no espelho… que não se deviam cegar, encerrar neles próprios, porque o mundo é muito mais que este corpo e que e, por outro lado, se em equilíbrio, nós devemos gostar de nós próprios, no que vemos no espelho… foi uma divindade que Deon também nos concedeu… e que não deviam só amar a beleza física… mas perceber que ela é resultado da beleza interna… que é necessário tratar da beleza de dentro para que depois ela se externalize e, bem assim, se torne eterna nos bustos”… ai que digo eu? Os bustos? Lá estou eu a ser egoico.

Vá, não te julges, Narciso… lembras-te dos gregos? Da Epoché? Da suspensão do juízo? Vá… isso também é em relação a nós próprios… Agora, vamos escrever isso tudo que disseste só que na primeira pessoa…

Hmm… Asneira, Clip… não apontei.

O Dacti apontou tudo, não é Dacti? Aparece um datilógrafo azul vintage que fala, com ar de acordeão mas com teclas no meio… saem-lhe os braços que mais parecem do fido (todos se lembram do fido latino e do boneco da seven up, right?)…

É para já Clip … queres que imprima já na primeira pessoa?

Não…. Quero que o Narci leia o que disse e se encontre no tu.

Ai, Clip… tu e as psicologias… Narci, de braços cruzados a desfazerem-se, enquanto desliza pelo tronco de uma árvore para se sentar. O papel está pronto… Narci contorce-se, fecha os olhos, vira a cara à verdade, quer dizer, ao papel…

Narci, tu para quem fala mal dos humanos… és bem igual a eles… olha para ti… todo cheio de medo da Verdade…

Verdade? Ainda não é verdade, cli… ainda não aceitei… (Aqui “aceitar” pressupõe “acreditar”)

Ok, ok Teeteto…

Teeteto?

Crença Verdadeira Justificada… noção de Platão do que pode ser verdade para nós?… Ainda que ele não feche esta noção e admita que ela está incompleta… é por isso que não entendo porquê que se dá tanto espaço filosófico a Gettier e a outros tantos que o tentam derrotar ( a Platão), quando ele nunca disse que isto era conhecimento…

Falam de mim? Olha quem é ele… Platão… (Here we go, Clipsera pensa e quase lhe faz uma vénia…mas não faz… reverência é uma coisa, bajulação egoica é outra… a alma reconhece o respeito sem atos corpóreos… e Clipsera tinha algumas reservas… Platão sabia-o).

Sim, Platão… estamos a discutir a visão egoica de Narciso… É Clip quem diz.

(Gargalha) Isso é quase pleonástico, Clipsera… Platão remata.

É, Platão, mas é importante que Narciso não fique dentro dele próprio, da bolha de perceções que criou…

Falas verdade.

Posso? Narciso, arrogante e a perceber que está a perder espaço na conversa…

Vamos lá Narci… aqui está… agora coloca na primeira pessoa.

Ok… “Eu escolhi só ver um lado de mim… a vaidade e o egocentrismo, quando eu sou bem mais do que isso. Eu devia ver que eu posso gostar de mim, de me olhar, da minha forma física, mas que eu sirvo também para representar o espelho de nós próprios, do que não gostamos em nós próprios… e que, pelo facto de nos cegarmos com a nossa beleza, deixamos de ver o que há para curar dentro… por nos cegarmos com o boneco físico, não vemos mais nada além de nós (Isto estou a acrescentar, Clipsera, porque me ocorreu enquanto passava o discurso para a primeira pessoa).

Fazes bem, Narci… é exatamente disso que se trata… de aumentar Consciência… de tomar Consciência…

 Então… “Que eu não sou um inútil qualquer… que eu lhes conto que é verdade que sou egoico, mas sirvo para lhes mostrar o que há ainda de errado no espelho… que não nos devíamos cegar, encerrar em nós próprios, porque o mundo é muito mais que este corpo; e que e, por outro lado, se em equilíbrio, nós devemos gostar de nós próprios, do que vemos no espelho… foi uma divindade que Deon também nos concedeu… e que não devíamos só amar a beleza física… mas perceber que ela é resultado da beleza interna… que é necessário tratar da beleza de dentro para que depois ela se externalize e, bem assim, se torne eterna nos bustos”… Afinal, até tinha na razão nos bustos… ou seja, é por nos curarmos, por reconhecermos em nós a divina Consciência que nos imortalizamos na Terra… os bustos acabam por ser uma metáfora para a nossa “res aeternum”… é isso, Clipsera?

Bem isso, caro Narciso. Responde Platão. Clipsera retorque: (…)

 


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