De um corpo no mundo

Dói-me tudo como no início, aperta-me o peito e eu só não sei de onde isto vem. Tentei tantos antídotos… todos, eu acredito… mas nenhum resultou como o amor e as palavras. Ontem aconteceu-me amar sem palavras… amar, comover-me com o mundo sem que quisesse as palavras… foi como viver, pela primeira vez, acima delas, das palavras… sabia que não iam chegar para eu dizer o que sentia… e também não me apeteceu correr atrás delas… foi como… se correr, se intelectualizar isto, eu vou perder isto, então mais vale Viver do que ser inteligente, do que colocar rótulos e predicados bonitos nas coisas… acordei com o peito a doer… ainda dói… mas vivo bem com ele… não me quero desfazer dele… em vez disso, sirvo-me dele… pergunto-lhe o que quer que eu escreva… e ele escreve… o que quer que eu ouça, e ele fala… acho que há dores de milhares de vidas em mim, mas, pela primeira vez, não tenho medo… quero vivê-las, saber quem são, o que são em mim, por que vieram…

É estranho ouvir Coldplay… nunca gostei muito deles… a voz do Chris Martin irritava-me… irritava-me, talvez, porque me fazia lembrar da dor em mim… é uma voz sofrida… de quem foi ao fim do mundo e não encontrou nada. Eu não queria essa verdade para mim, não queria descobrir que metia “a mão nas algibeiras” e que não se passaria “absolutamente nada”, diria Eugénio de Andrade, se me visse os bolsos e o dentro nessa altura… Porque agora há, Há Muito e eu só não sei sempre como lhe chegar… às vezes, tenho preguiça de respirar, tenho preguiça de ir para mim, cedo ao ego, ao imediatismo… ao querer a paz sem fazer o caminho para ela… e, quando isso acontece, mais vale vir para o papel… entender-me com o escuro em mim. Pode resultar. Já não dói. É só vazio. Um tédio pleonasticamente entediante, chato de ser vivido… um não se passar absolutamente nada, quando há um dentro que ferve e o Chris Martin diz:

Are you lost or incomplete?
Do you feel like a puzzle
You can’t find your missing piece?
Tell me how do you feel
Well, I feel like they’re talking
In a language I don’t speak
And they’re talking it to me

Absoluta e inexoravelmente isto… Incomplete, but not lost, I think… miserable, but not in misery… E as coisas falam, claro que falam… eu só não as percebo.

E sobre estar perdida ou a perder…

I just got lost!
Every river that I tried to cross
Every door I ever tried was locked
Ohhh and I’m just waiting ‘til the shine wears off

You might be a big fish
In a little pond
Doesn’t mean you’ve won
‘Cause along may come
A bigger one

And you’ll be lost!

E, outra vez, eu não ganhei nada… na verdade, perdi muita coisa, mas foi aí que, por muito que doa ao corpo, eu ganhei tudo…

foi quando fui arrasada e nada do que queria se tornou realidade que eu fui absolutamente grande e imperfeitamente vencedora… foi no nada que eu encontrei tudo… foi no absoluto vazio de mim, na impotência do nada que eu me reconheci como algo diferente de quem eu pensava que era…

e isto pode não fazer sentido, para mim não paz, pelo menos, até porque comecei o texto a queixar-me por me sentir mal e incompleta, mas a verdade é que foi na incompletude que eu me revelei inteira, que eu me descobri…

tenho faltas que não são verdadeiras… descubro braços e peles, investigo corpos e olhos que não são para mim… e isso dói-me, porque essa não sou eu, não é a versão que quero dar ao mundo… dói-me, às vezes, a solidão de não me saber amar, de não saber quem sou, de cair em conversas interiores que não são minhas…

Dói-me a profunda solidão de mim, mas é ela que me manda para o outro patamar… para o que está além disso tudo, onde eu sou segura, onde eu sou absolutamente quem eu sou, mesmo que eu nem sempre saiba disso Tudo num estado consciente… a verdade é que eu não sei quem sou e me reconheço aos poucos, além dos vidros partidos, dos espelhos bordados que não são para mim… mas a verdade, outra vez, é que a felicidade torna-se aos poucos uma coisa que é para mim… que exige que eu vá além, que eu atravesse os pântanos, que eu não ceda ao corpo, aos enganos, à voz do imediato, do calor esfumado dos olhos que não são para mim…

Dói, dói porque também eu me confundo e acho que sou um corpo… mas eu não sou, eu estou num… a biologia tem as suas regras… e eu vivi sob as rédeas, as cordas de um Tarzan analfabeto das emoções, durante muito tempo… tempo de mais, eu diria… tempo que me afastou durante muito tempo de quem eu sou… às vezes, ainda quero lá voltar… sinto falta de um corpo e isto acontece sempre um mês depois de um outro… de um homem que foi uma pessoa antes de ser um corpo… a masturbação nem sempre, para não dizer nunca, é uma questão clara para mim… dou-me mal com ela… reinvindico-a, porque ela é para mim como é para os animais todos… e eu, como tenho dito, sou um animal crescido… mas a alma, a alma nem por isso, às vezes… a alma sabe, mas eu não a ouço… confundo-a com a moral, os ecos magoados do subconsciente, as lianas das minhas árvores na savana… confundo-me, escondo-me, sinto-me e finjo-me… confundo fogo com impureza e eu sou um animal muito estúpido, não somos todos? Um animal magoado, enganado, como uma gata que não sabe que o mundo lhe quer dar tudo, se ela parar de se defender… mas eu teimo em erguer muros, muros de pensamento, moralidades que não são minhas, que eu inventei e reivindiquei para mim… já não sou essa, mas o corpo, a forma com que se vê no espelho, habituou-se… habituou-se às rédeas… e eu já não sou essa… já tão-pouco sou uma mulher… sou uma alma a experienciar-se no mundo… e engano-me.

Cometi muitos erros… mas, como li numa revista, há os erros certos… quero acreditar que esses foram os meus… sujei-me muito, mas precisei de me macular para saber reconhecer a candura, a doçura de mim a estar viva, longe do engano do corpo… e, talvez outra vez, isto não faça sentido nenhum… mas o corpo é um grande desafio para mim… o conflito, o desejo, o flirt, a carne…

tenho um corpo que se diverte, eterna criança sedenta de teatros e palcos… sei que isso não é verdade… já não lhe cedo, acho eu, mas estou ciente da mentira que ele é e isso custa… custa o hiato de saber que ele é mentira e querer acreditar nele… já nenhum braço moreno me vai servir, já não há lábios capazes de me distrair… e isso dói…

dói, porque ele já não reconhece antídotos, mas ainda não está suficientemente perto da alma, para que o ardor do sangue se cale… e eu não sei… dói-me… dói-me o hiato entre a verdade e a cura… porque mesmo que a Verdade venha, ela não me cura logo…não, porque não deixo, ouço. Talvez seja isso. Apegada à mentira, à ilusão… lembro-me de Cypher… o bife era uma ilusão, mas ele preferia viver ignorante mas feliz (acreditava)… acho que essa é uma das grandes tentações por que nós, humanos, atravessamos… sei que o corpo não é real, o calor, a dor, o ardor dos olhos que me olham não são verdade… são mero reflexo, mero significado de uma falta com que eu não sei lidar… sinto falta de conflito, de guerra, de sedução do acasalamento… e é por isso que fico inquieta, de coração tonto e sem raízes fundas que me segurem… depois julgo-me e acho que neste estado não sou digna de ser terapeuta nem professora de ninguém… mas isso é ego… e, talvez outra vez, seja a perturbação a minha grande mestre… a confusão que me traz aqui e me manda para os quadros ensinar a dor, ensinar que é possível sermos felizes mesmo com ela… ela não vai desaparecer, não aqui, pelo menos… mas atenua… chegará o momento em que não nos deixamos mais enganar pelos antítodos… esse é o momento da luz… o momento em que num secreto apaziguamento dentro, somos acima dela…vemo-la, mas ela não dói mais, não atrofia, não engana… porque o corpo já não dirige.

Às vezes, ainda me engano… luto com ele e depois desisto… é quando deixamos de dar atenção aos gritos de uma criança que ela se cala. Assim é com a falta de um corpo.

Às vezes, penso sobre a palavra tentação e acho que é absolutamente isto… uma mentira de um corpo, seja ele qual for, seja qual for a demanda em que ele nos quer fazer acreditar… a comida além daquela que é para nós, o açúcar de que não precisamos, o dinheiro, a fama, o reconhecimento e tudo o que nos manda para fora… confio cada vez menos nisto tudo… mas há uma tentação que ainda me apanha… uma ou várias… neste momento é esta… a do corpo, a das paixões desenfreadas de 15 minutos, a fantasia do amor no corpo… esse… a distração de um acasalamento em floresta fenomenicamente encantatória… esse finta-me. Porque não é certo – e certo não existe –, porque não serve para absolutamente nada para além de macular um corpo energético mas, mais do que isso tudo, porque me afasta de quem eu sou, dos planos que o universo tem para mim…

É aí que o corpo nos atraiçoa, nos tenta, nos afasta de quem somos… custa… custa porque é muito divertido… e vamos verificar que este adjetivo já está a mentir, tudo o que predica limita, afasta da essência que é e o que é é tudo, e é impossível predicar o tudo com palavras humanas. O resto mente. E eu estou farta de me mentir.

Talvez eu esteja certa, talvez isto seja tudo verdade… mas antes dos polos do mal e do bem, do primeiro que não existe e do segundo que é Tudo o que É, que eu esteja em paz. É esse estado que É… e pensar que o perco por preguiça mental, por mentira corpórea de não respirar fundo.

Na verdade, na verdade eu quero um amor. Um amor que me beba, que me transcenda e que me fale de quem eu sou… que me lembre de quem eu sou na Terra… talvez isso seja pedir de mais, mas eu não sei querer de outra forma. “Faz falta um amor”, li uma vez num texto de Laura Azevedo… na verdade, ele não devia faltar, ele não pode faltar, mas nós não o sentimos… inventamo-lo fora de nós… e eu já sei – e saber entre aspas é saber ler livros – da verdade toda. Mas eu ainda não sinto. Parece que só sentimos na evidência física, é por isso que corpo e alma têm de estar unidos, porque é através dele que sentimos, é ele o veículo para a verdade que chega… fake it until you make it … ouço. Yeah, sure… não sei… acho que poderia escrever milhares de palavras que a verdade não viria. Não agora, pelo menos. Mas haverá, chegará um momento em que that gravity pulls on you and me (Coldplay). Provavelmente, isso acontecerá quando eu não sentir que ele me falta, quando eu o descobrir dentro de mim… tenho pensado que a matéria se aproxima da verdade com o tempo… por exemplo, a internet aproximou a matéria da Verdade… quebrou barreiras… e, quanto mais a mente humana se abrir ao outro lado, se realmente fosse outro, porque ele está aqui, mesmo que nós não o vejamos, mais a Terra nos parecerá super avantegard (mas esse mundo novo, essa loucura que nos parece ser altamente científica é só alma dentro a pulsar, pronta a querer vir para fora, pelos olhos e pelas mãos que não a julguem mais, à alma)… Da mesma forma, quando eu for Amor, só Amor dentro de mim, quando eu não me faltar, o fora, a matéria manifestará a realidade de um amor incondicional que me habita dentro… até lá terei breves faíscas, meros flashes do que parece a Verdade… ou isso, ou a solidão de descobrir a companhia dentro. Escolhi a segunda. Custa como ossos sem carne… é por isso que, quando me identifico com o corpo, parece que há algo que falta… mas como a língua que o suporta e nos aproxima do que é ideal diz, parece. Só parece.

Márcia

Márcia at the wonderwall


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