Para o meu avô

Deixo-te com as rosas e que voes com as aves. Seria uma maneira eugeniana de te dizer adeus. Mas tu não o leste. Tu não leste nada e soubeste amar cada pedaço do que eu escrevi. Nunca ninguém me amou tanto ou amou de forma tão abnegada e desinteressada tudo o que criei. Nesta forma aqui, em que te choro agora, em que aperto as lágrimas e fico vermelha em frente ao teu caixão… Onde pessoas me ignoram, outras olham com admiração e falta de perdão também.

É difícil amar-te aqui. Não porque estás num caixão, tu não, o teu corpo… Mas porque te expõem desta forma à intempérie do coração do e do ego que não perdoa, porque te expõem às quezílias vãs e a tudo o que tu já não és, porque nunca foste. Fui das poucas que pude sentir o teu amor, saber que me amavas. Choravas, quando vias que tinha estado a escrever, mesmo que não soubesses ler. Viste-me e viveste-me como o melhor avô do mundo… Não, não digo balelas. Nunca quiseste saber dos meus sucessos e, de quando em vez, da magreza da tua cama afundada, perguntavas se já tinha vendido muitos livros. Mentia-te. Dizia-te que sim e tu bebias de mim, dos meus olhos e do meu sorriso de faz de conta sobre os livros. Mas para ti eu não fazia de conta. Amava-te nas perguntas, nos olhos, no sofrimento, na tua condição abandonada… Na tua capacidade de me amares sem esperares nada de mim. Acho que contigo morreram todas as pessoas que não queriam nada de mim. Nunca quiseste que eu fosse uma grande escritora, uma boa aluna, nem sequer bem sucedida. Orgulhavas-te secretamente de eu ser a única que segui as tuas pisadas, a única que vivia por conta própria sem depender de patrões, nem de ninguém. Como tu me ensinaste, Avô.

Está muito barulho e quero continuar esta história, mas preciso de te chorar na solidão da penumbra que me protege, que me salva dos que acham sobre o que sofro. As lágrimas aqui são honra e eu preciso desta honra contigo, só contigo. No universo mental, onde sempre nos encontramos.

Eu vou com as aves. Sei que tu também foste.

Amo-te.

Da tua neta.

Márcia

(Continuado num banco cá fora) Nunca fui como os outros. Não que me ache melhor nem pior. Mas nunca vivi nada como os outros. Sempre precisei de chorar intensamente, de ficar sozinha intensamente, de escrever intensamente e de te amar intensamente em segredo. Não é a tua morte que me dói. É o não poder chorá-la no teatro dos afetos… Na multidão ensandecida que não sabe quem sou, ao que vim, que não sabe como eu gostava de ti, como tu gostavas de mim, que não sabe absolutamente nada e me viola os poros, o coração e o sangue a chorar. Amei-te como se ama, como se deve amar. No silêncio dos outros e no profundo olhar e fanfarra de ti. Tu sabes que te amo. Que isso me baste. Mas agora quero ir embora. Embora disto tudo, do barulho de quem não sabe de quanto partilhamos na tua cama do hospital… As camas acabavam por ser já tuas… O teu quarto ganhava o teu cheiro. E e eu lembro-me de ti, enrugado na tua cadeira, ou já na tua cama, vencido pela vida, a encolher os ombros, quando te perguntava sobre como estavas. Davas já a coroa e o peito para que te desse Reiki de uma forma que ninguém notasse. Era um ritual nosso, só nosso. E eu amava-te aí. Sempre te amei.

Lembras-te da nossa regueifa do domingo na Aninhas? Nunca mais comi uma regueifa assim… Nem com ninguém como tu, que só ficava feliz por me ver comer, quando apertavas os punhos e dizias que tinha de comer para ficar forte. Também me lembro de pegar numa mola e de a prender no nariz para te tirar as meias… Era tudo fita. Mas não gostava do teu machismo e da forma como, às vezes, tratavas a avó. Mas ela amava-te assim. E hoje, hoje estão os dois em paz. Hoje tudo volta ao normal, ao início… Tu e ela juntos numa vida diferente da nossa, à nossa espera. Só isso.

Até já, avô.

Até já.

Subscreve o meu canal no Youtube

conhece o livro “Elas do Avesso” aqui Ou compra diretamente no botão abaixo

Márcia Augusto (recebe o meu livro! Basta clicares na imagem. :))

Partilhar
0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *