O (meu) maior amor do mundo

Comove-me o queixo de uma gata, porque isso é ela estar viva. Comove-me, devolve-me a mim escrever só para mim, como no início de tudo… quando eu escrevia nos cadernos e eles iam para o lixo. Comove-me não me preocupar com a expressão perfeita, a expressão bonita, mas tão-somente o choro que corre quando escrevo. Comove-me estar viva.

Gosto de histórias de amor, de histórias que superam a trama do cérebro, do ódio e de tudo o que nós não somos. Gosto de perceber que tudo é Um, que tudo fala a mesma língua mesmo que em linguagens diferentes… que é possível expressar Amor, ausência de conflito e iluminação numa teoria filosófica, num livro religioso e numa equação de matemática. Isso lembra-me de que sou livre, de que o que acredito é Verdade, mesmo que eu, neste corpo, com quem eu me identifico às vezes, não seja real… gosto de ter permissão para ser louca, para não corresponder a nada… gosto de ser livre das metas de antes… gosto de olhar o céu e pensar que isso é tudo o que tenho, mesmo que eu não tenha nada e só estas lágrimas, o fluxo da vida com aparência líquida, sejam reais, me aproximem da realidade que me pulsa. Gosto de não saber quem sou, porque isso me trouxe até aqui. Gosto de não corresponder… de um doesn’t fit que me pulsa, me liberta, me manda para fora de mim, para fora do boneco… agradeço às minhas mãos que escrevem agora o que eu preciso de dizer. Eu já não quero dizer direito ou bonito… eu só quero compartilhar o que eu sinto, ser capaz de me pôr no papel… como eu fazia antes, antes de tudo… antes de ter escrito um livro, antes de estar a escrever outro… eu só quero ser quem eu sou, livre das invenções, das ficções do meu corpo que eu não sou, do que os outros, em loucura esquizofrénica, minha, só minha, podem querer de mim. Gosto da loucura, porque ela me leva à mente sã. Gosto dos opostos, porque eles obrigam-me a procurar o outro lado da mesma linha, gosto de me iluminar, no coração. Iluminamo-nos no coração, não é na cabeça… recebemos a luz, vemos a luz nos olhos, mas isso só é possível porque o coração abriu, porque a fonte jorrou e eu fiquei sem ar. Gosto da Verdade que me tira o ar, gosto do deslumbramento da boca aberta, quando me apercebo de quem sou, de quem está aqui por dentro… isso é o maior amor do mundo. No resto, só fingi. Gosto de ser livre aqui. Só aqui posso ser livre… nas palavras… onde eu posso ser fraca, chorar, sem perder a grandeza… gosto da forma como Deus me fez, mesmo que eu não saiba exatamente quem eu sou… mesmo que Eles digam que não é o que eu faço, mas o que eu sou… sei que quando faço, isto de escrever pelo menos, me aproximo, tenho uma sombra de quem sou… e isso é o maior amor do mundo. Mesmo que eu não saiba nada e sofra a dor de não saber nada… hoje, aceito que não sei… aceito a aventura do mistério de mim. Ainda tenho máscaras, ainda falseio, ainda tenho medo… mas admiti-lo é também o maior amor do mundo. Gosto dos olhos da Jasmim, quando ela olha para mim… ela sabe quem eu sou… sortuda da gata.

Gosto da perfeição do mundo, mesmo que ele não seja real. Mesmo que eu não seja real agora, enquanto escrevo… projeção qualquer de que o universo precisa. Mas o que eu sinto é real, sei que é… atravessa tempos e espaços. Daqui a milhares de anos, milhares de vidas, posso comover-me com o mesmo olhar de uma gata, a mesma emoção, a mesma iluminação do amor que supera… isso foi real. Tudo o resto foi veículo.

E isto é o (meu) amor maior do mundo.

Márcia

Subscreve o meu canal no Youtube

conhece o livro “Elas do Avesso” aqui Ou compra diretamente no botão abaixo

Contactos 915628413 | marciaaires.crestina@gmail.com

No fim deste texto Salve, salve Renato Russo. <3

Márcia, desta vez autora.

Partilhar
0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *