Código de atuação cívica em caso de Tristeza

Irrita-me tudo como uma coluna riscada, uma almofada de som estragada, esbaforida… Odeio tudo como antes. Sinto raiva. Ranjo o coração, mas já não ranjo a vida. Pergunto-lhe o que é que ela quer de mim, porquê que quer. Sou indigna como todos os outros, com toda a dignidade de Quem me fez. Não tenho projetos, só a pergunta essencial… Como ser feliz? Ser inteira. Mas ser inteira implica ser eu, ser sombra também, dias de chuva, de treva, de penumbra e de raiva que rebenta e arranha o peito. Estou farta de frases do mesmo, de clichés da autoajuda. Isso não é verdade. Verdade é o que eu sinto agora. Farta de perseguir, de criminalizar a tristeza… Como se eu não pudesse estar triste. Saio de uma prisão para entrar noutra. Se estou mal, tenho de transformar o mal… Mas porquê? Porquê que o mal é mau? E porquê que há mal? Que raio de cânone é este onde a tristeza é só treva e só a alegria é luminosa? Que raio de humanidade podemos estar a alimentar se uma parte de nós é má, é preterível, passível de ser escondida? Deve, aliás, ser escondida. Que raio de merda é esta onde a tristeza é proibida? Que puta de severidade e de selvajaria espirituais nos querem ensinar? Onde é que eu estou e porque é que eu sou errada, quando choro, quando não me apetece, quando não sou perfeita nem feita à imagenzinha da intocabilidade dos espirituais de ponta. Não sou assim. Sofro como a merda, acordo muitas vezes a perceber que sou escrava de outro sistema mais legítimo, porque ajudo os outros, mas nem por isso sou mais livre, nem por isso gosto mais de mim… Tenho momentos em que a vida vale a pena, mas não é assim em todos os momentos. Aceito-me mais, mas continuo a ouvir-me muito pouco, a conhecer muito pouco os meus limites, a chorar e a parar já quando não aguento, porque acho que não posso parar, porque parar é preguiça e eu não posso procrastinar. Farta de fazer o que me dizem que tenho de fazer, e a minha cabeça acredita. Farta de ser quem sou. Farta desta ilusão, que eu não sei onde acaba. Farta de paredes, farta de limites… Farta de linhas e traves mestras de atuação. Farta de corresponder. Farta. E vem tudo abaixo de novo. Farta.

 

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