Quando eu fui à livraria (o dogma do mesmo)

Hoje, fui a uma livraria e o espanto… o crime público… Nada de novo, os mesmos autores de sempre, as mesmas ideias, os mesmos textos, o mesmo aborrecimento… abro livros como um homem olha mulheres num bordel. Já comparei aqui uma livraria a um bordel onde as minhas putas são os livros… algo que me salve, algo que me relembre de quem sou, que me leve para casa, nem que seja só no momento da leitura… nada. Concluí que há só um livro que me salva, o meu… aquele que eu teimo em não escrever, em adiar, como se a inspiração ou o tempo me faltassem… nem um nem outro… o primeiro vive da minha dor interna, cortante, em segredo, o segundo é uma desculpa… só uma desculpa. Uma desculpa de muito trabalho, de muita coisa para fazer… tudo verdade… mas o que é que eu quero fazer de facto? Afogar-me numa secretária? Não, claro que não. Quero ser livre. Livre como eu era, quando me permito (sim, está aqui uma discordância verbal; apetece-me… era, porque não volto, permito, porque ainda me posso permitir… que faço eu? justificar o que sinto, quando puta de linguística nenhuma vai entender o que eu sinto. Acho isso uma grande treta. Explico gramática todos os dias da minha vida e acho-a uma grande fantochada… divirto-me a usá-la para ajudar alunos a interpretar textos, para perceberem que ela não é tão inútil como parece… mas, convenhamos, senhores… ela é útil ao meu capricho… ao capricho de uma obcecada com a Língua… como um obcecado com a Matemática acha bonita a equação mais inútil… tudo bem… mas em que é que o resto das pessoas, normais e com outras paixões tão merecedoras de ócio como a nossa, beneficiam? Zero. Acho o ensino uma grande treta também. Acho a escola, na melhor das hipóteses, um recreio de imbecilidades para dar trabalho a quem gosta de ensinar, para entreter e programar meninos, para fingir uma sociedade normal. Acho que passam anos a ensinar o nada, a alastrar, a alongar o nada que se ensina… acho o ensino uma fraude. Para não falar no do ensino superior em que explicações de duas horas resumem o programa de um semestre (e os alunos passam!… pouca coisa… duas horas a tornar aquilo “tudo” em palavras que eles percebam, em matéria palpável capaz de reproduzir a treta dos slides e dos artigos e está feito… e já disse, não, não sou eu que sou extraordinária… é o ensino que está uma merda). E acho incrível como comemos isto tudo… como pagamos para isto. Pagamos ao Estado para que nos torne miseráveis… golpe de mestre… ensina-me a ser comercial assim, Estado!

Mas, enfim… comecei a escrever pelo motivo por que começo sempre… porque me dói. Porque descobri, ou (re)legitimei uma dor de que tinha saudades… parece que durante um tempo resolvi tudo a meditação e a panos quentes…não quero mais. Porque a minha dor ensina-me. A minha dor tem uma mensagem e eu quero saber qual é.

Hoje fui a uma livraria, já disse… e foi curioso… legitimei-me a escolher o livro que eu queria… do tipo, vá lá, Márcia… vamos lá… deixa-te de merdas, escolhe o livro que tu queres… É que eu gosto de livros com Verdade. Livros de e a fogo. Livros com letras de alguém que tinha coisas para contar, frases que, se ficasse com elas, se as guardasse, morreria asfixiado… são esses livros que, para mim, valem a pena… os livros que contam a humanidade, a põe a nu e à flor da pele… quero lá saber dos caralhos dos Nobel, dos poetas consagrados e da cambada toda que a sociedade decretou que era boa… Sinceramente? Puta que pariu. Quero lá saber. Durante muito tempo, até há uns dias, eu acho, gostei de autores, porque era suposto gostar. Comprava livros que não acabava de ler e não percebia… não me apercebia de que me estava a tornar outra vez numa pseudo literária do secundário… daquelas miúdas muito inteligentes e intelectuais que só leem a nata literária… mesmo que não sintam uma única frase… leram Vergílio, não sei quantos livros do Eça, alguns de Saramago, umas coisitas de Pessoa… mas, na verdade, é quando leem um badameco qualquer que ninguém conhece, que, acaso e graças a Deus está na estante, porque sobrou, que o coração lhes salta da boca… isto aconteceu-me muito poucas vezes… quase todas com autores e autoras que nunca vão ser dados nas escolas… não são professores universitários, não conhecem ninguém no Ministério da Educação nem nos lobbies das editoras… mas arrancam-me o fel do coração. A esses, o meu muito obrigada.

De resto, há também um código a manter na intelectualidade literária, que, para quem não conhece, eu vou passar a explicar… já dissemos de que autores temos de gostar… também fica bem pôr para aqui uns nomes estrangeiros… literatura traduzida nunca foi a minha “praia”… e, para ler na língua-mãe, das duas uma… ou se tem um inglês de nativo, ou a escrita é básica… o primeiro não tenho, a segunda não me interessa… Mas, fiquemo-nos pela literatura e pelo lobby português… há uns anos ouvi uma professora de Português dizer que não gostava de Saramago… fiquei horrorizada, mas não lhe disse… Não percebi que a grande idiota era eu por achar que temos de gostar de Saramago… não há problema em gostar de Saramago, há problema é em não se saber porquê que se gosta e porquê que não nos legitimamos a não gostar. Pensei naquilo hoje, porque, outra vez, uma professora disse que estava farta de Saramago… outra vez, caí quase na asneira egóica e cepa de julgar… mas, na livraria lembrei-me daquilo… ao olhar aquilo tudo, aqueles mesmos livros de sempre desde que vou a livrarias, e já vou há alguns anos… “estou farta de Saramago”… perguntei porquê que era criminalizável não gostar de Saramago… se ela não gostasse de Eça, eu ia entender… não porque tenham graus diferentes de qualidade, de todo… ambos são formidáveis (e mesmo isto é um juízo de valor), mas não se pode dizer que não se gosta do primeiro, porque foi nobel… e se foi nobel, então foi investigado pelas mais altas instâncias literárias, logo é bom… isto ocorre de uma forma inconsciente, mas parece-me óbvio que não é impossível de refutar, quando posto assim… e percebi… que raio de dogma é este? Que dogmatismo é este que aceitamos? Que aceitei… só porque foi considerado bom, eu tenho de gostar? Eu até gosto… mas não gosto de tudo… não, não gosto de “tooooooodas” as obras de Saramago, acho algumas até bastante tediosas, e acho que ele também, mas nunca me permitiria dizer isto até hoje… porque, para mim, era absoluto… se eu não gostava de algumas obras era porque eu era burra e não entendia a magnitude do autor… e percebo como isto é tão inverso ao que eu ensino na vertente espiritual do meu trabalho… Que puta de ideia é a nossa de catalogar o bom e o mau conforme aquilo que organizações, instituições corporativas acharam que era bom para nós gostarmos? Mas que merda é esta, Márcia Augusto?… que idiotice social é esta a que tu estás a aderir?

Bom, o que é certo é que não comprei nada… vim embora como fui… ou talvez não… sem livros novos, mas com novas certezas, que podem mudar amanhã e que liberdade essa de eu poder mudar!… que as livrarias estão cheias do mesmo a dizer o mesmo, que todos nós procuramos o mesmo, porque nos disseram o que era bom para nós gostarmos (talvez por isso haja tão pouca gente a gostar de ler… não me parece que o problema seja só do público, não me parece mesmo… acredito é que não há divulgação do novo ou do diferente, porque isso implica custos e muito trabalho na disseminação e divulgação… para além de instaurar novas eras e novas linhas concorrenciais dentro do estabelecido… os autores continuam exatamente os mesmos… parece uma espécie de monopólio oligárquico estabelecido, com que todos concordam sob a chancela do “bom”) e que eu posso não gostar de nada do que lá está, achar que aquilo tudo é uma grande treta de gente a repetir-se (não concebo arte que não me emocione…. se a arte não é capaz de mexer com o que é igual e não muda em nós – o corpo emocional, a alma a pulsar, então não é arte… é uma merda qualquer que o cérebro se lembrou de inventar) e eu não quero dizer que é lei, mas grande parte do que lá está é isto… Saí de lá mais livre… a saber que o que me falta sou eu… a minha própria escrita, a minha mensagem… Quando não os há (aos livros), cria-os… e é bem verdade.

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Márcia Aires Augusto (sem pinta nem ares de escritora)

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