Que Grande terapeuta que eu Sou

(Continuação do “Quando eu fui à livraria (o dogma do mesmo)” )

Apercebi-me também de que já não escrevia há muito… achava que estava sem inspiração, já disse… mas, na verdade, faltava-me coragem para ser quem eu sou. Esta coisa de ser terapeuta tem muito que se lhe diga… muitos dogmas, muita merda para limpar… tenho um problema que, pelos vistos, é uma bênção… antes de terapeuta, sou escriba… preciso de escrever, preciso de me resolver no papel e acho uma grande cobardia e irresponsabilidade não partilhar isso com o outro. Já não mo permito. Acho mesmo necessário… acho mesmo importante que outros leiam e saibam que não estão sozinhos no coração que dói, na merda toda que os desassossega.

Para mim, é o meu trabalho social… preciso de o fazer. Mas, com isto das terapias, parece que deixo de ter direito a estar triste, a passar-me da cabeça, a dizer palavrões, a ser “fraca”. O que é ser fraco? É aquele que sofre ou aquele que usa uma máscara para parecer que não sofre, que está muito bem com ele e, assim, vender a imagem de que nos cursos dele e nas terapias dele vai ser o caralho a quatro das caldas, porque ele é muito rico, muito feliz, muito não sei o quê e se ele conseguiu, “você também consegue”?! Sinceramente? Puta que pariu. Se isso é ser terapeuta, demito-me já e vou servir copos como fazia antes… era terapeuta à minha maneira, mandava chokureis para os copos de fino, fazia Reiki à distância e com os olhos, no final da noite, nas paragens dos autocarros àqueles que ainda não tinham conseguido ir para casa, aos que tinham adormecido… dizia a lição 90 do Curso Em Milagres para os conflitos que via na rua e pronto… estava a minha missão cumprida e eu era um animal como os outros… a rapariga do bar, bonita, decotada, com cu grande, que tirava finos e dava whisky’s bem servidos… francamente, era muito mais livre… ninguém esperava nada de mim e eu também não me exigia como me exijo agora… acho que me esqueci de que sou uma criança como outra qualquer, com dores, que comete erros… que está sempre a um passo de enlouquecer ou de se tornar mais lúcida… não quero ser iluminada…não quero… Deus me livre desse rótulo pesado, dessa responsabilidade… eu sou Luz no mundo… isso eu sei que sou… sei que sou Luz na Treva de mim e do mundo… sei que ilumino, que trago luz, porque deixei de ter medo do escuro… estou lá muitas vezes… mas falo com ele… já não acho que ele é um papão… mas exijo-me de mais… acho que me exijo não sofrer e não posso.

Sofro como todos os outros, sofro para caralho… a minha vida é um livro aberto e foi uma escolha, uma escolha de a abrir para que outros a possam seguir como exemplo, se funcionar para eles… uma vez, uma aluna, num dos meus primeiros cursos, disse-me… estás preparada. És um livro aberto. Estás mais do que preparada. E abraçou-me. Foi o abraço mais incrível destes últimos meses… ela sentiu o meu medo, a minha insegurança em estar ali, mas não se fez maior por isso… abraçou-me e lembrou-me de Quem eu era… isso foi o maior ato de grandeza que vi nos últimos tempos… o de não nos aproveitarmos da fraqueza, do medo dos outros, para crescer; antes, pelo contrário, o elevarmos connosco. É isto que eu aprendo. Eu aprendo sobre Treva e aprendo a levar-lhe Luz. Sou perturbada, tenho muitos problemas na cabeça, vacilo, como doces, cedo à tentação dos doces, às vezes fumo um cigarro às escondidas… eu sou uma pessoa normal… e acho que não me deixo ser. Foda-se! Estou numa fase em que já não posso, nem sinto vontade de o fazer, de dizer coisas do tipo: “foda-se, deixem-me em paz… eu sou normal”. Porque sei que sou eu que não me deixo, sou eu que me cobro, sou eu que acho que tenho de corresponder a um “puto” de um papel que a minha mente inventou, porque viu no Youtube, porque lhe disseram que era assim… sei lá… Sempre soube que não ia ser uma terapeuta normal, quando percebi que o meu rumo iria ser por aí… sempre me deu muita comichão existencial o facto de estarem todos de branco, o facto de estarem todos muito em paz e muito puros para, depois, horas depois ou menos, olharem com desdém o empregado do restaurante ou olharem com julgamento o colega de curso do lado… as picardias entre mestres e alunos… as lutas de ego e o mítico “o meu problema é não ter ego”… sempre me chateou que se vestissem de branco, mas não soubessem que o outro é espelho e irmão… sempre me chateou que, nestes cursos, fossem todos muito puros… Nos cursos de espiritualidade eram puros, nos de coach eram guerreiros e levavam tudo à frente… sempre me chateou quando me expunha e se riam… eu própria pensava que eu não era normal… dizia muitas vezes que acreditava que uma grande terapeuta tinha sofrido para caralho e devia ser alta perturbada, porque, de outro modo, eu não tinha lugar ali… lembro-me de se rirem de mim, num misto de curiosidade e admiração… nesta altura, o professor sabia que eu já não ia acabar o curso, não ali, pelo menos… estudei muita coisa de forma autónoma e continuo… e tive a sorte de ter uma grande professora de Reiki que me convidou a mandar tudo à merda e, numa primeira conversa, me disse “vais ser Mestre. O mundo precisa de almas como a tua… almas coerentes, que ensinam o que vivenciam”. Foi a coisa mais bonita que me disseram até hoje. Obrigada, M. Por tudo.

Não sou mestre, nunca vou ser… mas sou professora… de mim mesma… e, como ouvi dizer uma Youtuber de quem gosto muito, “Estou aqui para me curar de mim mesma”. É só isso que eu quero. Aprender a ser feliz dentro de mim. Aprender a ser livre de mim. Se puder ajudar pessoas no caminho com isso, melhor… se não, volto aos finos e às lojas… pela minha liberdade vale tudo menos fingir, bancar um eu iluminado e super livre que eu ainda não sou. Sou feliz, mas quase livre… questiono-me muito e nem sempre acho que giro o meu dia da melhor maneira… falho imenso, cobro-me imenso… acho que me devia levantar às cinco horas da manhã, mas depois só me consigo levantar às sete e sinto-me culpada por isso… sinto-me culpada, quando não vou ao ginásio, quando não escrevo e não trabalho no Clipsera, quando não faço tudo aquilo a que me propus… e a minha vida torna-se uma grande seca, um grande cárcere. Às vezes, fico tão cansada disto tudo que me apetece ir para o shopping e não dar aulas… às vezes, eu sou só uma menina que não sabe Ser. E eu gostava de estar bem com isso. Este texto é uma tentativa de estar bem com isso… não com o meu lado pecador, porque sei que isso não existe, mas com as ilusões todas de mim, as ilusões que eu ainda crio e em que acredito sobre mim. Mas, ainda assim, às vezes, na maioria das vezes, acho, eu sou feliz. Mesmo que chore, como agora… sou feliz. Sou genuína, sou fiel… sou leal a mim… e isso foi a minha maior conquista.

(e é também o meu (maior) amor do mundo)

#ElasDoAvesso da Márcia Aires Augusto 😛

 

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E porque nem só de Beethoven se faz o mundo…

Márcia Aires Augusto

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4 thoughts on “Que Grande terapeuta que eu Sou

  1. Susana Matinho says:

    Continua, Márcia! Ao teu ritmo, permitindo-te sentir tudo o que tens para sentir. E expõe-te, sim, mas, sem te exigires (diz alguém que tem karma de exigência 🙂 e que também anda nestas lides de lidar consigo mesma).

    És super gira e o teu olhar irradia a tua Luz!

    • Maug says:
      Maug

      És linda, Susana! 💙 Gratidão por leres e estares comigo. Somos uns bichos em reconstrução de pedaços da alma, em processo de retorno. “Nem tudo é fácil, mas assim dá mais gosto” (frase do AC 😂). É muito bom ver o processo que está a acontecer… Este crescendo da comunidade da Luz… Pessoas que se enfrentam e expõem cada vez mais para lá dos cânones estabelecidos dos “iluminados”. Quanto à exigência, ia gravar um vídeo e lembrei me de ti… Gravo amanhã. 😂 beijinho 😘

  2. Teresa says:

    Muito bonito desnudar-se assim. Obrigada pela partilha. Penso que é assim que todos nos sentimos. uns dias estamos bem e outros dia menos bem. Ou mesmo, muito mal…connosco, com os outros, com o mundo. Também apetece mandar tudo para trás das costas, ai isso apetece. Chego a dizer: qualquer dia vou viver numa tribo lá para os confins, andar com vestidos largos e compridos até aos pés, despreocupar-me com o meu aspecto ou com as nódoas na roupa, viver livre e descalça, não ter que tomar banho quando não me apetece, nem cortar o cabelo ou pintar as unhas. Mas o bom é que isso passa e estou pronta para enfrentar o mundo, são só desvarios.

    • Maug says:
      Maug

      😂 Bom dia, Teresa. Tem sido tão boa esta aventura de me pôr a nu… Tão bom perceber que estamos todos cada vez mais corajosos para assumirmos quem somos… Tão bom perceber que somos todos iguais, todos o mesmo… Achamos que somos separados, mas, na verdade, todos sofremos na pele as mesmas pressões e todos fingimos que não, porque é suposto. Que bom este encontro com a nossa essência de modo comum. Somos tão abençoados por viver nesta era! Obrigada minha linda. Um beijo no teu coração (já me apetece tratar-te por tu) obrigada meu. E olha, se gostares, segue o blogue (ao lado tens o “seguir”) e a página. Beijinho muito grande e muito obrigada por te partilhares comigo.

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