Não se vive da Arte, a Arte vive de nós

Às vezes, as pessoas perguntam porque ainda não fui mais longe… ainda não estou com uma editora assim e assado, ainda não tenho mais livros nas lojas… ainda, ainda, ainda… as pessoas querem achievement and So do I, aparentemente… mas, há pouco pensava e gemia entre lágrimas, abafava-me em choro e dizia, eu ainda não servi a arte, a literatura… ainda não me voltei para Ela, como o Saramago fez, aos 60 anos, espero fazê-lo mais cedo, e lhe disse, lhe perguntei, Como te posso servir?[1], ainda não me sentei para escrever e ver se tinha alguma coisa de jeito para dizer[2]. Escrevo para me sentir bem, porque preciso, porque, se não escrever, eu corro o risco de enlouquecer… escrevo para me desenvencilhar de estados de almaque me doem, escrevo para me salvar, mas nunca escrevi para salvar a arte e ou a literatura… a literatura, a escrita, a arte ainda é minha escrava, escrava do que eu quero fazer com ela… até agora, escrevi porque precisei, porque não aguentei não escrever, ou escrevi, porque era bonito o que eu ouvia na cabeça e as pessoas iam gostar… porque senti que não podia guardar as vozes para mim… mas a arte ainda não foi a primeira premissa… ou não foi sempre… também acho que estou a ser injusta comigo ou talvez não… de facto, nunca me voltei para a arte e lhe perguntei “como te posso servir?”. De facto, ainda não quis servir a arte, nem quero. De facto, ainda não me sinto preparada para isso, porque ainda olho para isso como um fardo e não como o que é, que é uma libertação. De facto, se escrever a servir a arte, sinto que não sou livre… mas, na verdade, eu não sou livre de mim própria e é por isso que ainda uso a arte para me salvar de mim própria, para me salvar do escuro… vou trazer a arte do escuro para a luz, vou fazer pela arte o que ela fez por mim, vou salvá-la do escuro, mas, por agora, sei que ainda não consigo. Sei que o meu teclado é o meu piano, que choro a cântaros a escrever isto, mas ainda não sou totalmente livre, ainda não sou totalmente abnegada no amor à Arte, é por isso que ela ainda não veio, não totalmente, como eu gostava que viesse… mas será que eu estou preparada para ser total com a Arte? Tenho tanta coisa para fazer que acho que a arte é só uma brincadeira, que acho que só posso voltar a ela quando não tenho nada para fazer, que acho que não sou digna dela, que ainda não sou suficientemente boa para ela… e, por isso, reservo-a para o fim de semana… ainda não sou total com ela. Não me acho digna, merecedora dela… a Arte é uma extensão de Deus. Talvez ainda não me sinta totalmente digna dele e, por isso, não recebo totalmente a Arte. Talvez porque ainda não sirvo totalmente Deus, ainda não consiga servir a arte. Ainda. Mas Ainda faz parte de um caminho a percorrer, que está a ser percorrido. Eu só ainda não consigo. Mas percorrer já estende o “ainda”, porque encurta o caminho. Não sou perfeita, tenho deficiências morais e éticas face à arte… a arte não conhece a minha moralzinha, a Arte[3] é também uma extensão da ética, uma questão de ética… deram-me os dons, mas eu ainda não os sirvo… ainda me sirvo deles… escrevo para me salvar, não escrevo para salvar o mundo. Enquanto, não deixar o pronome pessoal isolado não estarei apta para ganhar da arte. Estarei, quando não quiser nada dela, quando já só a der para que o mundo ganhe. Sei que um dia chegarei a essa hombridade, a essa nobreza da alma e escrever sobre isso já é alguma coisa. Sei que um dia.

[1] Esta frase é mais inspirada em Platão. Saramago não perguntou assim.

[2] Saramago perguntou. Foi a questão que mudou tudo, na vida dele, aos 60 anos.

[3] Porque nem sempre vi a Arte como entidade, enquanto escrevia, nem sempre vi a arte, gráfica, mental e, por isso, figurativamente falando, com letra maiúscula.

P.s.: Até que eu dê o meu corpo de casa à arte, nada, absolutamente nada vai acontecer. E, mesmo isso de lhe dar corpo terá de ser abnegado, sem esperar nada. Vive em mim, porque é o teu lugar, arruma a Tua casa, como tu quiseres, porque ela é tua, porque ela é a tua morada e tu escolheste viver em mim. Até isso acontecer, eu não tenho o perdão da Arte. E a arte que me perdoe e e que eu me perdoe por ainda não a ter perdoado, que quer dizer tê-la aceite total e inexoravelmente. Ainda não.

#ElasDoAvesso

Márcia Aires Augusto

A arte é um grande quero lá saber comprometido.

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