Gosto dos homens rudes e depois?

11/06

Às vezes, esta também sou eu, ou melhor, sou eu sempre, a de sempre, a que escreve em papéis desemaranhados, sem ordem, sem clave que os salve. A apostar que estes papéis vão parar (paro para observar a música e a jasmim… a música também se observa, quando um Nocturno de Chopin começa; a gente não sabe, nós não sabemos como o mundo é belo, como a vida é boa… como pode ser) vão para o lixo, antes mesmo de serem transcritos… egoísta? Egoísta é quem escreve para outros lerem… a não ser que escreva porque o que escreve irá ajudar os outros (mas ninguém pode começar a escrever para ajudar os outros, se o fizer, serve o útil, isso parte a arte em dois e a Arte é de Deus, não se pode partir… surge, porque tem de surgir… Deus não é útil. Deus é. Assim são as extensões Dele), será egoísta… separado por ego, desânimo inventado num papel que o salve. Não sou assim. Não quero ser. O que escrevo é meu, só meu, inviolável, inquebrantável. E sei que me contradigo… como posso querer ser escritora, se não quero partilhar?… não é isso. Ao papel reservo o poder e o direito de ser meu, meu e de Deus, antes mesmo de qualquer luz, conjetura de ribalta…

Comecei a escrever, porque queria falar de um homem… não vou falar de homens no Elas do Avesso… isso não é suposto.
Pergunto-me porquê que me puxava para a rudeza, o homem sem chinela que o salve… sem travo de luxo ou de cultura… já “desculpei”, como se fosse crime gostar de pessoas assim, isso com as raízes… mas é mais do que isso. Gosto de simplicidade, da rudeza, da bravura de dizer asneiras sem que isso os demova, os intimide… gosto dessa bravura, a bravura de serem quem são. É por isso que gosto de homens “rudes”, rudes de educação literária, sem lirismo nenhum, com poucos ou nenhuns livros… porque puros… não foram maculados por esta sociedade “desenvolvida” de homens cultos que vomitam expressões que conheço, que se fazem passar por algo que acham que me vai agradar, que se simulam… “Porque os outros se mascaram mas tu não”… Foi sempre por isto que me apaixonei… pela ausência de máscaras… aos poucos, com o passar dos anos, fui me apaixonando por homens “normais”, “dignos” do meu “estatuto” literário-intelectual, que merda de estatuto social me foram, me fui, arranjar. Era nos momentos de maior “baixaria” ou de descontrolo emocional, mais próximo de mim, na verdade, descontrolava o que queria controlar, de quem eu era, que vinha a sede por um homem normal, que não soubesse dizer coisas de livros, mas que me soubesse olhar como pessoa e mulher.

Voltava… Eles, os outros, as outras, o meu “círculo” de amigos não percebia – e eu fingia que era louca, que estava descompensada e que aquilo não era a melhor coisa que me estava a acontecer… Afinal, “aquilo” não tinha nada que ver comigo. Como é que Vida não tinha que ver comigo? Amei tanto esses homens… mesmo que por uma noite, duas ou três… não era por serem incultos, rudes ou insensatos, era só porque não era para ser (talvez eu não deixasse caminhar para mais, como deixaria se ele me falasse de Baudelaire… afinal, eu estava tão formatada como os outros). Mas amei-os, porque sei que ainda hoje gosto deles, ainda hoje sou capaz de sair com eles, de jantar com eles. Porquê? Porque eles são Verdade e ninguém precisa de livros, quando tem a Verdade toda dentro. Eles não precisaram de ler nos livros ?, eles têm uns olhos que me sabem ler, além do que eu pareço… veem mulher, anjos e demónios também… veem ideias que são tão fáceis, tão simples de entender que não me perguntam se Deus existe ou por que razão acredito… eles acreditam em mim – não é inacreditável? –, na mulher que está à frente deles. Apreciam o meu umbigo e dizem que eu é que sou um milagre. São básicos, diriam os meus “amigos”… São homens, são entes do sexo perfeitamente masculino e, portanto, voláteis face e com uma mulher… era só isto que eu queria, que eu pretendia… não queria grandes ideias, nem que concordassem comigo, só queria que me olhassem como eu sou, alguém, uma alma – mesmo que eles não soubessem isso; não é preciso acreditar em almas para as ver, elas saltam aos olhos de Quem se mantém puro e pronto – num corpo… que, no todo, acham bonito… não queria ser essa deusa das ideias, nem o cargo ou estatuto de inteligente… com eles, estava habituada a usar a inteligência para lhes fazer os testes na escola.. alguns eram tão difíceis que fiz seis testes em 90 minutos… desde o 5º ano que fazia os testes ao rapaz mais bonito, ele protegia-me do resto, amava-me da baliza, dedicava-me golos com os olhos, comia o lanche comigo, escondidos atrás do bar, porque me queria beijar… era desses meninos-homens que eu gostava… só desses… depois, parece que fiquei muito inteligente, “tive” de arranjar homens inteligentes (uma miúda, uma vez, disse-me… gostava de homens, porque me ensinaram a gostar de homens… depois, experimentei mulheres e gostei mais. Acho que foi isso… ensinaram-me que tinha de gostar de um determinado tipo de homens; de homens só, também… também acho a homossexualidade e a heterossexualidade uma grande treta… acho que quando se dá o passo de amar a humanidade, é possível apaixonarmo-nos por almas… e aí vemos além do corpo… já me encantei mais com mulheres do que com homens… sempre mulheres mais masculinas… acho que isso vai do condicionamento de “Pavlov”… tens de gostar de homens… e eu gosto… só que depois de tanto trabalho espiritual, percebo que isso é uma treta… que o amor não escolhe sexos, porque não vê corpos, vê almas… e não há tendência nenhuma aqui, a não ser a tendência para Deus… sou capaz de gostar, de me sentir mais atraída por uma mulher do que por um homem, num dado momento, porque vejo mais Deus nela e Deus, a Verdade, atrai-me, é irresistível), cultos, charmosos, pelo menos interessantes, e se fossem bonitos, perfeito… que me aguçassem o intelecto.

No entanto, foi com os burros que eu amei, com quem eu falei da mais sofisticada filosofia, do Universo, das possibilidades, de Deus e da Verdade. Deus é fácil. Não precisamos de complicar para falar Dele. Seria, de facto, um Deus muito tirano, se eu tivesse que ser culta e dominar o mais alto vernáculo para falar Dele.

Gosto de homens rudes. Não uns rudes quaisquer que maltratam pessoas, desses apanhei alguns, que eram bem cultos, por sinal… Rudes que me levantem o vestido, me apalpem na rua, manifestem a sua indecência, me olhem nos olhos, me digam que eu sou maluca e me mandem à merda também. Rudes ao ponto de entenderem tudo o que eu digo e de me dizerem, eu sei que tu não és para mim – na verdade, nunca fui para ninguém, eu não sou de cá, sou do Todo inelutável, inexorável, inesgotável também, que me contém –, sou só um empregado de bar, um talhante, um gajo da rua, eu ouço como tu falas para as tuas amigas e não usas as mesmas palavras para falar para mim… Mas és grande cona e vai tudo correr bem.

Gosto de pessoas simples. De gente de casa, que me trata por tu, que não me bajula, que me agarra nas ancas com a sabedoria uterina de que aquela pode ser a última vez, sem nunca ter lido Blavatzky. Gosto de gente normal… que não me exclui nem me mete em gavetas… gosto de gente que me olha nos olhos, que me vê a verdade e a bondade sem querer nada, absolutamente nada de mim – de lhes ser absolutamente inútil, basta que lhes seja… recordo-me agora de Aristóteles, a atitude contemplativa desinteressada, recuperada por Kant para falar de uma atitude desinteressada face ao objeto de arte… faltou dizer que é assim que devemos olhar para as pessoas, a maior obra de arte de Deus, se tudo não fosse o mesmo, porque de Deus. Ok, aqui entrarão os teóricos com a máxima de Kant, que preconiza usar os outros como fins e nunca como meios… mas creio que os caros colegas compreenderão que a atitude contemplativa desinteressada face a um ser humano é mais profunda do que isso – que não o de me dizer com olhos que sou linda, que me vê por dentro e que gosta de mim.

 

Márcia Augusto

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Duas músicas que acompanharam o texto, a primeira principiou-o, a segunda mediou-o, a terceira impôs-se à transcrição.

 

 

 

Márcia

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