Obrigada, Pai

Porque queres o que tu queres? Quando me fiz esta pergunta, não sabia responder. Queria ser iluminada, mas ainda não queria Deus. Isso me fez parar. Me fez perceber que querer iluminação envolve um coração grande, que ainda não havia em mim. Dias mais tarde, percebi que eu queria ser iluminada, porque queria resolver a vida. Queria ser rápida a resolver a vida. Rápido. Não necessariamente bonito, belo ou amoroso. Feito. Desisti. Caí. Senti a culpa de anos e horrores em cima de mim. Senti-me um fracasso, uma cobarde… Um serzinho armado em tretas, achando que podia dizer não a Deus. Acho que percebi que quando dizia não a Deus era Deus a dizer sim. Talvez tenha descoberto que não há nada que eu faça que não seja vontade de Deus. Não sei. Digo isto e ainda não acredito. Que importa? “Abandonei” Deus naquela praia, achando que fazia a maior asneira da minha vida e descobri-O porque desisti Dele, porque admito que Ele era demasiado grande para mim. Que as suas escolhas não eram as minhas. Depois, descobri que, afinal, eu não posso escolher à parte dele e que mesmo aquele “erro” não era um erro, fazia parte do plano. Várias vezes me tenho perguntado como seria possível que se Ele não deixou o plano de uma Flor ao acaso, como poderia deixar o meu? Descobri que é sonho, mas não senti no coração. Descobri, colecionei conhecimento, mas não aprendi. Aprender envolve amor. Eu já não tinha amor no que eu aprendia. Fazia, porque era suposto. Descobri, pelo menos, que nada com Deus é suposto. É ou não é. É amor, e às vezes não o percebemos como tal, mas é, ou não é de todo e isso significa que não é nada. Decidi doar as minhas armas e desistir. Momento mais sábio da minha vida. Não sei para onde vou, mas sei que Ele me guia. Que Ele é inexorável em mim. Que Ele me Ama, faça eu o que fizer. Ele não reconhece atos, reconhece coração, a intenção, o amor nos atos. Em nenhum momento me senti abandonada ou julgada, quando, naquela praia, lhe dizia, Pai, eu não consegui. Naquele momento, escrevi com uma corrente de força que não era minha, mas que estava em mim. Quando desisti, encontrei Deus. Secretamente, sabia que esse era o meu fim, que é também o meu começo. O coração guarda o essencial. Colecionava e me deslumbrava com histórias de pessoas que O encontram, quando desistem dele. Ainda não desisti do mundo, nem dos afetos. Continuo com apegos. Amo a minha mãe e os meus gatos e não conseguiria agora viver sem eles. Acaso Ele me julga? Claro que não. Pedi-lhe novos caminhos e Ele não esperou para me dar a resposta. Hoje, não sei quem sou, mas sei que Ele está em mim. Não espero estar certa, embora o ego mo exija. ele, do “e” pequeno, ainda está aqui, ainda me comanda, mas nem aí Ele me julga. Não sei para onde vou. Hei de fazer muitas cagadas, mas Ele está aqui. Esteve sempre. Obrigada, Pai.

Partilhar
error0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *