Quem Sou Eu?

Pela primeira vez na vida, admito. Eu não sei quem sou, mas há algo de Real em mim. (quem sou é nada, é produto; O Que me dá a Vida é Tudo)

Pai, este ano, já abri mais documentos word do que sei lá o quê… não comecei nada, mas também não era eu a começar… era uma máscara. Quis ser elevada, falar para Ti do alto da escada, quando ainda estava no vão… no vão cá de baixo. Não fui capaz. Será que não fui capaz ou fui capaz do que eu tinha de ser capaz? De desistir. Não sei se estou enganada, se a Vida virá reclamar-me, quando eu preferi/prefiro ficar no vão da escada, na vida pequena, na vida “mesquinha” (pode a Vida ser mesquinha?). Morri de mim. Morri de querer do que não quero. Na verdade, retirei o ego das empresas para o colocar em Ti. Antes, eu queria ser a melhor no Marketing… depois, a melhor na escrita… depois, a melhor nos vídeos… a Melhor… nunca eu. Eu não sei se sou eu a fugir… porque, afinal, não somos nada. Será que eu quero

(Aquilo que agora está perdido é a chave da porta seguinte – Flaira)

criar outra personalidade? Será que é o ego a reconfigurar-se de novo numa outra coisa qualquer, visto que o caminho é não ser ninguém? Lido tão mal com a ideia de não ser ninguém e, ao mesmo tempo, respiro fundo na liberdade de ser nada. Não sei. Sei que dei por mim a ser papagaio do que não acreditava. Um Curso Em Milagres, a reviravolta da minha vida, dava-me paz… Tanta paz, Pai… até que decidi ouvir outras versões, achar que a minha estava errada e as dos outros estava certa. Provavelmente, nenhuma está certa – afinal, preferes estar certa ou estar em paz? Talvez eu não tenha percebido a profundidade e o alcance disto. Talvez eu não tenha entendido que ninguém está certo e que a única coisa certa é o Amor. É o único centro onde não há erro, porque prospera, porque não separa. Será o sexo errado? Será tudo errado? Certo que a matéria é prisão… mas o que fazer enquanto ainda queremos estar presos? Este final de ano serviu também para me aceitar onde estou. Às vezes, tenho medo que Deus me leve para andanças que eu não quero. Sabes, não quero ser iluminada. Não agora. Quero ser melhor, quero amar mais, quero ser menos vaidosa, quero amar o outro, quero que as separações (ilusões) caiam… quero olhar o outro e amá-lo profundamente, perdoar como tu me perdoas a cada segundo… tudo isso este ano me trouxe… Este ano trouxe-Me a Ti. Dói-me o peito. Medo de ti, medo de não conseguir ser o que me pedes. Tenho medo que queiras que me ilumine nesta vida. Não quero. Aperta-me o peito. Quero ir com calma. Quero saborear a vida, não excluir nada nem ser escrava de nada, embora, neste mundo, saiba que serei sempre escrava… da carne ou do espírito… Serei fiel ao que me der vontade (Flaira – Atriz, Cantora ou Dançarina). A verdade é que já não sei nada. Não sei se o que sinto é o que sou, pois o que sinto muda, logo não deve ser ponto do imutável… mas, como me guiar? Tenho medo de me estar a dar aos sentidos… que estou. Mas, se puder reparar numa coisa que se repete, a única, é a de que tenho medo. A verdade é que foi sempre que não tive medo do que sentia que fiz algo de jeito. Foi quando não me repreendi… no fundo, foi quando exerci um pouco de Deus em mim. A aceitação total e inexorável… não excludente… inclusiva de tudo… do bem e do mal… da dança de opostos… ai que liberdade amar os opostos em mim… Em Ti não há opostos. Tenho medo. Lembro-me do passado… de me querer dar aos ensinamentos de “Mulheres que correm com lobos” e a vida, a Voz me levar para a negação do livro… na verdade, queria lê-lo na altura… mas quem queria? É sempre esse pas de deux entre o amor à escravidão – corpo – e o amor ao Alto – espírito. A verdade é que eu não quero negar nem um, nem outro. Quero viver entre os dois. Um Curso Em Milagres diz que é impossível ver dois mundos. Também já me perguntei se somos nós, a mente, que radicaliza tudo. Mas, errada ou não… sorrio mais, na verdade, sorrio outra vez… aos poucos, aceito-me onde estou. Tenho pesos… tenho medo. Sempre o medo. Medo de estar errada. Medo do desejo. Medo de cegar. Medo. Mas não posso viver assim… não fazer por medo de ser errado, fazer por medo, ter de fazer o que está certo. O que fazer, Deus, se o certo ainda não é o que o coração quer? O que é certo? Li tanto e partilhei tanto que a Verdade não pode ser relativa… e, em termos lógicos, sei que não… mas… e o meu coração? Este peito que ainda pulsa por vida? Ainda me quero arranjar, ainda me olho ao espelho… sim, é vaidade… e ocorre-me aquela frase que tanto me magoou em Um Curso Em Milagres… que achávamos natural o pecado e anormal a santidade. É verdade. Mas, que fazer, Deus? Se gosto de corpo, gosto de dança… a Verdade pode gritar… “isso não é real”… e o coração aperta, por isso, algo em mim sabe que isso já não é real… nunca foi. Gosto de roupas bonitas, com cor… e em mim algo sabe que isso é tudo passado… condicionamento… e que, quando a Verdade for a única coisa que eu quero, ela aparecerá para mim… mas eu não posso matar ramos, galhos que ainda estão em mim… Não temos Deus, porque ainda não O queremos totalmente. Eu não quero excluir, eu quero unir. Errada ou certa, é o que eu sinto.

E não há livro nenhum que me possa dizer o que é certo eu sentir ou não. Desculpa, Jesus, não há. Talvez Tu me digas, como dizes, eu nunca te deixarei sem consolo. Talvez a única que se tenha forçado a sentir o que não sentia tenha sido eu. Quem feriu meu coração fui eu, mais ninguém (Mariana Aydar). Num mundo em que todos me dizem o que sentir, o que fazer… chegou a hora – outra vez – de sentir o meu coração. O que é que ele me pede? Será que esta vida me pede que me ilumine ou que seja feliz?

O orgulho do cientista mostra o seu limite (Lama Padma Samten).

Talvez, talvez eu me limite… talvez eu não queira mais luz do que a que recebi, porque mais luz me fará desaparecer. Talvez eu ainda queira sentir o Universo a partir de uma parte. Talvez. E quem me diz que isso é errado a não ser que cause dor no meu coração? Na verdade, quero cometer os erros certos. Estou disposta a cometer todos os erros – olha só o delito do cometer -, mas, no fim, a Verdade será a minha… será o que eu aprendi, não o que outros me disseram. No fim, a Verdade será o canto do meu coração. Talvez possa levar milhares de anos… o que tem? Antes milénios para Me conhecer, do que semanas para me aterrorizar. Estes últimos meses foram um terror… uma descida aos infernos de mim. Uma obrigação, uma carnificina da mente. Talvez exagere e não consiga tirar o melhor. Talvez, de certeza, me falte perdoar o que foi, o que fiz a mim mesma. E, sim, talvez, esteja imersa numa grande ilusão de Maya, visto que me prendo à Terra, aos desejos… ao emaranhado, à junção de pensamentos mutantes e mutáveis com realidades absolutas, e isso não pode misturar-se, aparente ou logicamente… mas, quem disse? A verdade é que há uma verdade em mim que pede para ser escrita… não sou nada, nem ninguém… não sou corpo, não sou as roupas que visto, nem tão-pouco a minha vaidade… sou algo estremunhado pela Verdade… sacudido… com medo, também, embora não o seja, vivencio-o. E quem não tem medo nesta vida? Ainda assim, sei que algo dentro de mim não tem medo. Algo que é pura Vida, que me leva para novas estruturas, novos pensamentos, novas leis… que digo? A única constante na minha vida é a contradição. Às vezes, acho que sou uma vândala dada a desejos… mas, ainda nisso, Ele perdoa-me. Deus só quer que eu seja feliz e ele aceita-me onde eu estou. Volto sempre ao mesmo… parece que não saio do sítio na conclusão. Talvez, porque esse seja o grande preâmbulo. Se Ele me aceita onde eu estou, quem sou eu para me querer mudar? Como um ser que não aceita que tem um corpo mais gordo e se obriga a fazer dieta, fui/sou um ser que não aceita/aceitou o seu lugar no universo… qual Ícaro. Achei que tinha de ser mais pura, mais sábia, mais à frente, mais, mais, mais… passei por coisas horrendas para mim… percebi o quanto não me custava pôr creme após o banho… e o quanto isso me liberta também. Este texto não faz sentido… é exatamente isso. Não faço sentido absolutamente nenhum. Mas haverá um lugar para mim neste Universo. Haverá um lugar para a expressão da totalidade com todo o accent da minha individualidade. Não me quero separar, mas também gosto de ser Márcia. Como ser Cristo se gosto de ser Márcia? Como fundir os mundos? É possível ou acaso imaginário? Estará Deus vetado para quem ainda não quer ser – como se isso fosse possível – totalmente Ele? Creio que não. Mas nós vetámo-lo. Sou menos livre, quando quero ser bonita… quando me identifico com o corpo… quando quero pintar o cabelo, quando coloco ou aceito fantasias quem vêm de fora da minha cabeça – nada existe fora de mim, apenas as faço/as vivo acting out, ilusoriamente acting out. Sei que me perco – será que sei? Já estive tão certa de estar no caminho e essa certeza, essa obstinação, trouxe-me tanta dor… separou-me tanto dos que amava…

Obriguei-me a não abraçar os gatos… por achar que tinha de negar a forma. Obriguei-me a ouvir o Baltasar latir até ao limite da dor no meu coração, porque achava que tinha de me treinar para ser invulnerável e fazer com que o estender da roupa fosse a máxima e a totalidade da expressão da ação de Deus, para que o seu fluxo passasse por mim sem accent, sem márcia. Magoei-me tanto. Será que não entendi/entendo que isso é também controlar? Não me aceitar onde eu estou, levar tudo ao pé da letra, ser fundamentalista… será que isso não é violentar-Me? Acaso Deus quer isso para mim? Sim, a luz dói… já dizia Platão… fere os olhos. Tudo certo. Mas será que o caminho é forçar-me? Será que me forcei ou aconteceu exatamente o que tinha de acontecer e o que achava que decidia já estava decidido? Acredito cada vez mais na segunda, embora me custe a aceitar. Custa-me aceitar que não sou livre, mas algo há aqui para aprender na falta de liberdade. O amor da causa, talvez. O amor ao que acontece, sem costurar… para que o avesso seja tão limpo como lado oposto. Incrível como tudo isto me fala de união e eu só quis, teimei separar. Será que o é impossível ver dois mundos significa, ao invés de negar a forma, negar que o mundo exista – tudo bem com ele não existir, só ainda me quero experimentar nele – seja amar a forma, sem apego? Será que o amor é excludente? Tentei essa teoria por longos e duros quatro meses – foi horrível. Desci ao inferno. Segui o que ouvia de fora, magoei o meu coração. Talvez estejam certos… não importa. A verdade deles magoa-me. Posso estar emaranhada em fios de ilusão – isso estou de certeza –, mas senti-me literalmente a morrer… o fio da vida fugia-me. Não era mais capaz de sorrir… passei muito tempo, demasiado tempo, sem dar uma gargalhada… neguei-me. E era eu sem ser eu no meu próprio corpo. Uma fantasia na mente, a que eu tinha de corresponder. Achando que os outros estavam iludidos – quem são os outros? –, porque o mundo não existe. Tudo bem, ó Platona. O que descobriste trouxe-te felicidade, foi a tua verdade ou um eco reproduzido? Foi declamar Platão ou David Hume – com tudo o que têm de oposto – sem sentir uma vírgula que fosse nas veias. Isso é real? Melhorei muito… em algumas coisas. Estou mais humilde ou, pelo menos, consciente de que sou muito pouco humilde. Já sei que o ego não sou eu, mas é através dele, da forma, que me experiencio… e ele pode ser educado. Não adestrado, que era o que eu tentava fazer. No dia em que desisti, que não aguentei mais… fui e tomei dois cafés – e o meu corpo tremeu… não aguentava a loucura –, comprei e comi batatas fritas com arroz – fiquei com dores de barriga –, acendi um incenso para tomar banho – fui ao livro e lá dizia para não me dar a ídolos; fechei o livro e nunca mais o abri; abri a versão em inglês, mais tarde, e falava-me de um mundo perdoado, de figuras no sonho perdoadas. Vinha-me e vem-me a frase de uma professora de Um Curso Em Milagres, “se acham que o Curso Em Milagres é muito pesado, vão para o Segredo” e se for? E se for demasiado para mim? Ou se eles estão errados? E se eles estão errados, Deus meu? Oh… e se eu é que não estou preparada? Qual é o problema? Entrei numa aventura que deveria ser de amor para me julgar a toda a hora. É isso Um Curso Em Milagres? Creio que não. Mas, quando comecei a abrir-me a outras vozes, foi isso que encontrei. Sei que sou responsável pelo que atraio e que elas só ecoam o que há dentro de mim. O julgamento era eu. Eu a achar que tenho razão… eu achar que sei tudo e que os outros são errados. Não aguentei. Ninguém aguenta esta jornada sem amor. Ninguém. Queria ensinar o Amor, enjaulando-o. Como? Ainda não sei se estou certa… aí vem a loucura do ego… o medo de estar errado. Um medo me apavora… estar errada. Pois bem, cara Márcia… vais errar muitas vezes… get used to it. Tenho medo que a vida me convoque de novo… não vou. Deus é Amor. Como ensinar Amor a julgar-me por todos os lados? Como ensinar amor obrigando os outros a seguir caminhos que não são os seus? Vi atrocidades e aceitei-as. Aceitei o desastre, o sacrifício… aceitei verdades que não eram minhas. Se o mundo é sonho, pois que seja. Se Deus não criou a Terra, pois que não tenha criado. Se Deus não criou o corpo e se ele é ficção, pois que seja… que interessa isso se ainda há apego à terra, apego ao corpo? Se passo a mão na pele e me dói a aspereza de quem não vê ponta de creme no corpo há quatro meses? Tens de ser mais forte, é a mente… Tudo isto me parece um absurdo agora. Sei que sou vaidosa… que quero ser amada pelo corpo, pela imagem… que gosto de ser bonita, embora já rejeite a maquilhagem – não sei se real ou imposto[1][2]. Na verdade, não sei nada. Sei que quero Amor. Que quero estar no presente. Que me quero libertar das minhas próprias amarras. Que quero seguir o meu coração – mesmo que ele esteja errado; pode o coração estar errado? A bússola mais sofisticada do universo. Que importa um livro? Que importa a sabedoria toda, se ela me magoa? Ai… estás a interpretá-la conforme o que te dá jeito… pois que seja… quem pode, neste mundo, dizer o que está certo ou errado? Quem? Quem pode ser uma autoridade no mundo que não o meu próprio coração? Posso estar errada, mas a minha sobrancelha já não treme… recuperei a voz… aos poucos, recupero a luz. E quero dançar. Talvez volte ao Yoga. E talvez aprenda a cantar, sem medo de cantar mal – porque eu canto muito mal, mas gosto de cantar. Márcia, perdes tempo com caprichos do ego. O que é isto senão um julgamento? Às vezes, penso que, neste retiro imposto pela vida, não parei de ouvir a voz do ego, porque me tirou Vida, e que foi para isso que me retirei… aprender a Ouvir-Me, a ouvir o meu coração. Certo ou errado, ele tem um tempo e quem sou eu para o forçar a bater nas cordas dos outros?

Não sei para onde Vou, mas sei que Quem Ele é me guia.

[1] Post-scriptum 2: Foi porque “errei” que percebi que sou produto de ninguém; de pensamentos passados, não frescos, condicionados que expelem uma realidade também ela velha, projetada a partir do passado… um nada pronto a ser tudo em função de influências. Se é possível operar a todo o momento sem condicionamento passado, só a partir desta Voz? Não sei, mas voltamos ao mesmo, não estou preparada para ela, embora esteja preparada para saber que além dela não há nada e que Ela é tudo. Se me volto a todo o momento para Ela? Não, claro que não. Gosto de ser escrava. E nem por isso Ele/Ela me julga.

[2] Post-scriptum: o próprio ato de não pôr maquilhagem é imposto, acho que gosto, porque me habituei. Então, é tudo irreal, tudo aparente e mutável à exceção da força que sinto, sempre que me volto para dentro e peço por Ele. Aí tudo é novo, tudo é fresco. Aí é um breve, sinuoso e constante toque de Deus. Está sempre lá. Independente do que eu faça, de me perder no ego para voltar. É Ele. Só Ele é real. Uns chamam de Amor; não tenho dúvidas… é Amor ou o criador do Amor. Criador e criado são o mesmo… filho de peixe sabe nadar. É Amor. É ele. Foi isso que UCEM me trouxe. Não sei se voltarei a ensiná-lo. As estrelas dizem que Sim. Se o Fizer, que Ele me ajude a transmiti-lo com Amor, fora de extravagâncias e de imposições. O Amor é livre e independente do que eu faça.

 

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