Deus é Engenheiro

(Este texto foi escrito originalmente no grupo “notícias do Bem”, mas apaguei-o lá, porque achei que o espaço não era para isso, embora tenha sido o espaço que acolheu este post. Ia só falar sobre a inclusão de uma doença na caracterização de uma boneca e acabou por sair isto).

Não é sobre aceitarmos a máscara de que isto se trata, mas, aos poucos, isto vai ficando mais acolhedor, mais inclusivo. Mais como Alto, mais “está tudo bem”, independentemente do que isto parece ou do que eu penso sobre o que acontece. No fim, ninguém quer saber do que pensamos. O melhor, o melhor é acolher todo e qualquer ser humano ou, melhor ainda, qualquer forma de vida. Tenho-me apercebido de que “sei” muito e de que não sei fazer nada ou muito pouco. Mas o não saber conduziu-me até aqui. Esvaziou-me. É no nada, é na doença, na asfixia, que gratidão, amor… Deus… deixam de ser coisas nos livros. É também aí que deitamos muito lodo fora, palavras estrangeiras e coisas que já não nos representam. Mesmo que isso seja “ego”. Não querer ter ego ainda é ego. Isto trata-se de aceitar a merda como ela está e amá-la por isso. Porque há algo subtil na dor, que religa, que dá sentido, que une. Percebes também que nunca te vais curar, porque, ao que parece, a tua doença não existe, é fictícia. Mas tudo bem, tu sente-la e dói para c. Mas, ainda assim, é uma dor diferente depois de teres “estudado” tanto, meditado tanto e, acima de tudo, teres encontrado Deus – encontramo-lo no desespero ou na beleza de uma paisagem, no amor a outro ser… Normalmente, só ligamos no primeiro caso. Ele nem se dá conta, Ele está sempre lá, aqui dentro, quer tu O reconheças, quer não. Mas a vida ganha muito mais cor, aliás, ganha vida. As tretas da autoajuda, do curso, do exagero da meditação, da iluminação e de tudo, tudo o que é demais é erro – e eu paguei bem caro por isso -, são isso… Tretas para serem levadas a sério. Vão esvaziar-te. Se fizeres bem o serviço, que é deixares-te levar pelo ego a querer iluminar-se ou a querer outra merda qualquer que tu valorizes, vão levar-te à loucura. Vão levar-te à loucura, porque tu “ainda queres”. Ainda queres. Ainda não está bom. A tua vida vai tornar-se num pequeno inferno. Ninguém nota, mas tu estás na merda. E trocavas tudo por um pensamento, uma decisão real – “eu não quero nada desta merda, eu estou bem como estou” . (Nesta altura, nem tens alma para dizer palavrões. O cérebro está demasiado anestesiado de tanta meditação e de tanta reza. Só falta levitares de tão puro que tu estás. Só falta uma coisa : Vida.).

Deixei tudo, até o próprio Deus, ou, pelo menos, o que eu achava que Ele era, uma tropa de mandamentos… Encontrei-O lá, na praia, a dizer que se Ele era aquele inferno, meditação, reza, desistir do mundo, de comer, do sexo e de tudo, que eu não O queria; afinal, eu gostava tanto do mundo e não sabia. Afinal, eu gostava tanto de pessoas e não sabia. Afinal, era tão bom estar viva e eu não sabia. Foi aí que o encontrei, num silêncio qualquer que fala, que dizia, pulsava, no coração e na vida… Filha, eu nunca te pedi nada. Eu só quis que fosses feliz na cagada que arranjaste. E foi tão bom! A autoajuda e toda a busca vão destruir-te, porque é o teu ego que está em busca. No fim (qual Einstein – as grandes descobertas ocorrem quando o investigador atira a toalha), percebes que não há nada para buscar. Está tudo aqui. O cliché todo. A cena é que não é mais um cliché. O dinheiro deixou de te meter medo… E essas coisas todas do mundo. Há só uma coisa que ainda te mete medo, a tua própria cabeça. Ela ainda não está curada e, às vezes, lá estás tu nas merdas dela. Mas, agora tens escolha… Uma escolha que te liberta, o agora.
Nunca vou deixar de o investigar, ao ego, dizem que não vale a pena… Mas eu não consigo não cair nas tretas dele se não perceber porquê que sempre que fico com medo, como um camião de bolachas. Ele é um tipo muito desequilibrado. O ego. Tu não és o ego, mas tens de o conhecer, porque, se não o conheces, do nada ele está a liderar o teu sonho; o que te fazia feliz ele tem o dom de tornar na tua prisão… O trabalho que tu amas, ele torna-o numa linha de montagem e ou numa forma de ganhares dinheiro. Tudo bem com isso, mas não é esse o ponto. Tudo para te dizer isto: está tudo bem até se não fizeres nada, porque tu És antes de fazer. A cena é que se não fazes – mas antes e durante sê o que fazes -, vais adoecer, porque nem Deus soube estar quieto, quando Te criou e está sempre a criar. Quando amas, é Ele. Quando ajudas alguém, é Ele. A cena é não fazer só porque não sabes estar quieto, porque isso também te vai adoecer. Solução: Agora. Agradecer. Desejar o bem e acolher o “outro” como parte da família. Somos Um. No fim, é a unidade que te vai salvar. O resto são Tretas. É quando não queres nada que é do outro, que ficas feliz por ele, que não colocas o teu desejo pequenino à frente do do outro. Por exemplo, ir sair com alguém só porque não sabes estar sozinho. Achas que tens o direito de ocupar o tempo do outro, quando o ponto não é estar com ele, mas não estares sozinho? Não, não tens. Deus não é só uma experiência de morte – também É -, mas é mais, e sobretudo, esvaziares-te de ti para não fazeres mal ao outro. Para que Ele possa levar o bem ao outro. É quando o mundo deixa de ser só uma expressão do que tu achas que queres. É quando confias que da maneira Dele é que está bem, porque, na verdade, não sabias, nem soubeste fazer melhor. Ele torna a nossa cagada em três atos em Amor. Se isso não é alquimia, eu não sei o que é. DEUS É o maior engenheiro. Tudo procede Dele e o que não procede foi alta cagada da nossa mente que, se tu quiseres, Ele vai reinterpretar.

Eu falo de Deus, porque sem Ele não conseguiria. Encontras Deus, quando não há solução, quando “Foda-se. Fodi-me toda e agora? “. Agora rezaste no desespero, porque percebeste que não há meditação nenhuma nem livro que te salve. Só Ele. E a tua dor passa e tu não deste por nada. Curaste uma depressão e ninguém deu por nada. Nem tu (!). Do nada, estás a pensar para a tua mente, que é como falas com ela, “quero lá saber se isto é real, quero é ser feliz”. Aceitas a dor como parte do plano e usa-la para te ligares a todos os seres. Pedes que a cada pontada de dor no teu coração, 1000 bênçãos sejam dadas aos teus irmãos, pedes felicidade para os pássaros e para todas as formas de vida, pedes desculpa quando vais contra um candeeiro ou quando és bruto com alguma coisa, porque sabes que somos Um, ninguém to mostrou, à custa de tanta pancada, meditação e reza, subitamente, eu chamo Deus ao súbito, estás lá, e o ego é engolido nesses momentos. Nesses momentos, ele morre no próprio veneno. Ele queria iluminar-se e tornou-se invisível para ti. Depois ele volta com as merdas dele, mas já não tem o poder que tinha sobre ti. Entregas, rezas, pedes a Deus e subitamente ele, que é a causa da dor, desaparece. Falta-me correr muito, mas ainda assim, faz parte do jogo vir aqui contar. Bring it on. Não, não são vocês que precisam de saber, é o nosso vínculo que precisa de ser recordado. É isso que faço, quando partilho. Curo-me de cada vez que o nosso coração se faz Um. Calhou – me de ser fácil com as palavras, mas é só isso… Elas são veículo para o nosso amor que existe. Love. Nós

Nota: engenheiro, para mim, é aquele que arranja solução para aquilo que a humanidade considera problema na prática. Não está com merdas nem é político. Ele resolve o que nitidamente precisa de ser resolvido. By the way, eu digo que não, mas adoro engenheiros.

Partilhar
error0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *