A Liberdade do Recomeço

«A recomeçar»

«A liberdade do recomeço»

Liberdade de questionamento… sempre foi esse o meu propósito, a minha premissa de vida, o único caminho possível… questionar Deus, mas questionar sobretudo o que me rodeia… o que é dito… e o questionamento mais erudito e mais radical de todos, aquele a que teimamos não ceder ou tememos entrar… o de nós próprios… das nossas crenças, do que fazemos, porque fazemos… até, e sobretudo, daquilo que é mais sagrado para nós… meditação, Deus, tempo de reza, tempo de meditação… isto, porque noto que fiquei cativa de mais um mandamento… no fundo, saí de um, o das empresas, do mundo corporativo, para me meter noutro… o da espiritualidade… no fundo, o problema nunca foram as empresas, a educação, a espiritualidade… afinal, “conhecemos” Deus e continuamos cativos… onde está a besta? Dentro de nós próprios… há uns anos discursava sobre o primeiro livro… continuo a dizer o primeiro sem ainda ter lançado mais nenhum, tudo bem… e dizia que os “presos não estão nas cadeias, estavam naquela sala e nas ruas, cativos das suas próprias prisões mentais, das ideias”… dizia aquilo segura de mim e voltaria a cair no calabouço… tudo bem, faz parte… faz parte a alegria da libertação… mais um bocadinho, pelo menos… questionar Jesus Cristo, questionar Buda, a doutrina, os livros e os mandamentos…(* – nota abaixo)

questionar tudo… deitar tudo abaixo e só deixar o que nos faz bem… utópico, mundo de bonecas… diriam… pois bem, experimentemos tirar todas as ilusões, todos os brinquedos a uma criança e vejamos o que acontece… pergunto-me se estar neste mundo não é, de facto, conviver bem com a necessidade de brinquedos, desde que usados para espicaçar a nossa criatividade, o nosso bem maior, a união com o absoluto, que é a absolvição e a absorção do eu… é isso que acontece quando brincamos… adoramos sexo, porque deixa de haver separação entre eus… aqueles eus brincam entre si e o único gap aparente entre corpos é substituído pelo amor, pela necessidade de dar, dar, dar… mesmo no dito sexo sem amor, se isso for possível, como se não fôssemos sempre criaturas de e pelo amor… a criança brinca… a energia é a mesma… é por isso também que devemos continuar a “trabalhar” no que mais gostamos… podemos – e devemos em alguns casos – não usar isso como profissão (de modo a não colocar a criança criativa sob o jugo do ego, do ganhar dinheiro, da reputação e por aí fora do mundo)… não devemos nunca deixar de brincar, de criar… a energia da brincadeira é essa… a de criar… sem aviso prévio, sem interesse, sem utilidade… estando apenas no agora, vivendo a energia que o momento nos traz… é isso que é brincar….

Retomando, adoro a liberdade de questionar… de me questionar… porque trabalho em espiritualidade? Quando comecei e porquê? A resposta é fácil… há uns anos, uma amiga minha veio até minha casa e disse-me que os meus vídeos tinham muita qualidade e que eu devia promovê-los e trabalhar mais com Reiki, espiritualidade, etc… chorei muito à frente dela e disse-lhe que não queria, porque do que eu gostava era do “Elas do Avesso” e, no fundo, era através do blogue, ou não, que cativava miúdos – sei que não… é tudo um jogo do universo e é o que Lhe apetecer… dizia-lhe, “o que chegou até mim sempre sem esforço foram os miúdos, a escrita… e é disto que eu gosto”… dizia-lhe isto enquanto chorava… pergunto-me o que me deu para não ouvir as minhas lágrimas, para achar que a minha amiga era um sinal de que eu estava no caminho errado, que não trabalhava com espiritualidade por ter medo e que, portanto, teria de arrancar, pôr pés ao caminho, porque Deus não espera… tão errada que estava… ou, então, estava certa e era necessário para perceber isto agora… a verdade é que sem esse erro crucial nunca teria chegado até aqui… havia o erro certo, agora há o erro crucial, absolutamente necessário para o desenvolvimento… apologia do erro… talvez… foi sempre assim com os alunos… talvez tenha muito mais a aprender com eles, talvez não… não sei…

A verdade é que se não tivesse trilhado este caminho, não saberia como sei, de profunda certeza, que somos Um e que tudo o que vejo, tudo, absolutamente tudo, é projetado pelos meus pensamentos e que querer mudar isso ainda é querer controlar… nada que ver com alterar a frequência para o amor, claro que sim e isso é bem-vindo… mas já não perco tempo com o “Márcia, tens crenças limitantes no amor… no dinheiro, no não sei o quê”… ora, façam-me um favor… Não. Não falo dos outros, até porque para haver outros, teria de haver eu, e não há… mas estou muito mais atenta… quando pego num livro e começo logo a ficar triste ou em baixo, porque a senhora me está a dizer que tenho de ganhar mais dinheiro, que tenho de me curar, que estou muito terrena, muito espiritual… que tenho de… fecho-o automaticamente e rio-me… “ok, vocês again, pensamentos a tentar manipular a jogada”… rezo, escrevo para Deus, reconecto-me, já não estou 30 mil horas em meditação, porque é suposto – a meditação é um caminho, se temos a humildade de saber que há algo maior do que nós, de falar com esse pessoal, se imediatamente sentimos essa conexão, não vejo porque tenho de seguir caminhos que não são para mim, porque funcionam para Buda ou para a ciência… tenho um altar a que chego e instantaneamente estou lá em cima… e mesmo sem altar… fecho os olhos, penso Nele, agradeço e automaticamente estou bem, logo não me obriguem a meditar só porque isso resulta com alguém… é como dar um ben-u-ron a alguém que já não tem febre… medito, sim… quando sinto que preciso… mas é preciso ver, sentir, qual o caminho da felicidade… rezo e é toda uma energia de amor e de felicidade em mim… medito e fico calma… ok… tudo bem… meditar o dia todo ou rezar mais ou, pelo menos, na medida certa? Acho que é óbvio… demoro muito a chegar a conclusões… já fui mais rápida… agora demoro muito… porque não confio em mim… já confiei demais e esbardalhei-me ao comprido… mas também já fui capaz de deitar tudo abaixo e de questionar… acho que é disso que se trata… questionar… questionar—questionar… e deixar estar, quando não há respostas… também já não perco tanto tempo a questionar o ego… ele adora, mas eu não…

No outro dia, estava na segunda aula de dança do ventre… e estava a ser particularmente difícil… sentia-me uma velha… ou, então, começava a questionar tudo e todos… a professora que me manda pensar e eu gosto de dançar e não de pensar enquanto danço… a vergonha… a inadequação… tudo… até que… olhei fundo nos olhos da professora (e a amei)… outra vez aquela sensação de inadequação, de não conseguir fazer o que me pedem… uma vontade de chorar súbita que controlei, outra vez, porque “o que iam pensar de mim?”… és tão frágil que choras aqui? Na verdade, era o que uma criança iria fazer face à frustração de não conseguir fazer o que lhe pedem, ou, pelo menos, era assim que a márcia-criança reagia… engolia, ficava vermelha como um pimento com ondas e seguia… chegava a casa, treinava até à morte para, dias depois, se apresentar na aula e fazer tudo. Engoli o choro… foi instantâneo… não sei se certo ou errado… foi o que quis fazer… ou foi imediato… saí e claramente o ego queria avaliar aquilo, o que havia ali para aprender… mas eu estava maravilhada demais com a vida, com o momento presente… e, então, falei com Deus, hábito que ganhei desde que fui ao lodo procurar a “iluminação” e disse-lhe “Pai, entrego-te isto… se devo pensar sobre isto – já me ria, sabendo a resposta – que pense, se devo estar no agora e as respostas virão por si, que esteja no agora. Entrego-te a professora e a situação. Diz-lhe que a amo muito e agradeço por tudo, pelo seu amor e cuidado comigo. Amém.”

A vida voltou ao normal… não pensei muito mais nisso… vi um vestido amarelo numa montra, que quero comprar… entretanto fiquei doente e não deu… sei que se for para mim, lá estará e sei que até no ato de comprar um vestido há amor… no outro dia, vesti um …. Era bonito… mas apertava-me nos braços… estou mais gorda e só Deus sabe como fico feliz com isso… quando desço abaixo de certa medida, algo se passa de errado na minha vida… e, então, voltei-me para o vestido e disse-lhe “meu bem, vais ficar aí para outra menina…”. Esta consciência de que se a coisa não ajusta perfeitamente, talvez não seja para nós, o “não-desejo” de caber em tudo, de me ajustar a tudo… ai que seca, Deus meu… Deus é liberdade de pensamento, Deus é poder até questioná-lo… Deus não é pessoa… está em tudo. Deus é vida, é perdão absoluto, é amor… é compaixão, é bondade, é pensar claro, é sentir com todas as mãos e todos os corpos… Deus é amor… milénios para aprender isto, Márcia Augusto… baila-nos, Deus.

A questão ou a resposta é… valeu a pena… perdoei quem tinha a perdoar, soltei o que havia a soltar… não estou curada, não há nada para curar… quando acho que há, caio no poço outra vez… mas há uma consciência em mim, maior do que eu… é linda… é bela, é generosa, é criativa, sabe tudo… essa sou eu, somos todos, mesmo que eu não A seja sempre… funde-se comigo, sempre que eu A deixo… nunca me empurra, à exceção de quando me estou a fazer mal e a quebrar os limites… deixa-me ser eu… ama-me profundamente… sempre fui eu, sempre fui ela… lava-me a cara com as lágrimas… leva-me a pontos tão altos em mim… Ela está em todos, Ela é Todos… perdoa tudo… não se apega a nada… é perfeita… e está tudo bem. Permite-me questionar, sair da roda, do pensamento vivo ou morto… permite-me sentir, redirecionar a vida para onde eu quero, não para onde me disseram, na mente (não há nada fora nem dentro, tudo é o mesmo… se vem um pensamento que diz “tu não podes”, muito provavelmente surgirá alguém ou um vídeo a dizer que não posso… a ideia não é que tudo é mentira, mas é sentir com o coração o que é verdade… ontem, pegava num livro de meditações de Marco Aurélio e ele dizia que eu tinha de trabalhar… era um pensamento obsessivo que tinha na mente e que tenho vindo a ter… sempre que começo a abrandar o ritmo, a mente fica chateada… deve ter medo que a descubra, que tenha tempo para viver e deixe de lhe ligar tanto… márcia antiga ligou logo o computador… nada fluía… ‘quer saber? Quero lá saber… desliguei tudo e dei-me ao estado natural que a vida me pedia… não fazer nada e que bem que me soube… às vezes, é mesmo preciso o nada… é preciso distinguir… o nada que mata, que me mostra que estou sem propósito e o nada que me diz que preciso de parar e de descansar… aceitar que me vou abaixo, que fico doente e está tudo bem com isso… as respostas renovam-se, sempre se renovam… questionar o mais profundo de nós… até o mais nobre… até o próprio Deus, o casamento, a carreira, quem eu sou… tudo o resto vem… quando queremos de coração a resposta, a resposta vem, sempre vem.)

#ElasDoAvesso

P.S.: «Cada um de nós é por enquanto vida. Isso nos baste» (José Saramago, in Provavelmente Alegria)

(*) Isto, porque, há uns anos, tive e quis questionar porquê que não me era permitido acreditar em Deus… sim, a mim… era “demasiado inteligente” para acreditar nessas coisas, diziam-me. E eu demasiado básica para acreditar em tudo o que me diziam. Fui ao fundo e arrisquei a loucura, lembro-me de dizer a mim mesma, sempre que o meu questionamento me fazia ir a lugares da mente onde eu não conseguia penetrar mais: “Entre ficar louca e saber a verdade, eu arrisco a loucura para saber a verdade”… simplesmente, abria-se um universo de coisas que eu não podia mais questionar ou inferir… lembro-me desse lugar sufocante… não havia respostas, nem perguntas… ia lá e voltava, achando que aquilo era demasiado para mim… pobre criatura… não sabia que essas respostas estão no coração… mas fez parte o percurso mental.

De volta ou a retornar

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