Reflexões I – Modelos Educativos

Ontem lia um artigo nada relacionado com educação – mas o que não nos educa ou deseduca? Estamos constantemente a ser bombardeados por informação que nos molda ou nos inspira/expande. Surgiu a frase de Oscar Wilde – “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria apenas existe”. E surgiu-me a reflexão de… se eu fosse professora de Filosofia, colocaria esta frase e perguntaria ou pediria para comentarem sobre esta mente que existe com o cogito de Descartes, na medida em que “Eu penso, logo existo” nos situa na mente da personalidade, que se identifica com o que faz, nomeadamente o que pensa – nem sempre pensamos as melhores coisas – para existir.

Há dias comentava com um aluno sobre o atentado às mesquitas… se o senhor que cometeu o atentado não se identificasse com os seus pensamentos, soubesse que não é os seus pensamentos e as suas crenças, com certeza, não iria fazer o que fez; iria, antes, investigar as crenças ou, melhor ainda, conectar-se com a Mente superior – mente do estado meditativo, absolutamente fundido com o agora, é um estado de presença ativa sem pensamentos separados… por exemplo, quando dançamos, quando fazemos algo que expressa profundamente a nossa alma e nos sentimos vivos… essa é a nossa natureza verdadeira, a que está no agora, perfeitamente alinhada com tudo… o que pensa e o que é agora são o mesmo e trazem felicidade, alegria cósmica, pelo sentido de verdade que trazem. É o estado da criança – a criança brinca feliz e não indaga sobre o que vai fazer depois nem julga o que faz agora. Está num estado de plena pureza e inocência, ainda não maculado pelo sistema. Então, se não nos identificamos com a mente que pensa, que está condicionada – fazendo n e n relações de causa e efeito do passado projetadas no futuro, relações essas tantas vezes falsas e, portanto, se projetadas no futuro, gerarão decisões também elas desalinhadas com o fluxo de verdade cósmica.

(Por exemplo, ouço um barulho no carro. “Este barulho é semelhante ao que ouvi daquela vez em que tive de gastar €300 com o conserto; pronto, já vou gastar dinheiro”. Depois, verifica-se que, afinal, é algo muito simples e o mecânico nem leva nada ou é uma pechincha. No entanto, no tempo que separou a deteção do barulho do carro até ir ao mecânico, infernizou-se na mente, ficou zangado, stressado e triste. Se fossemos ensinados que a nossa mente do dia a dia é indutiva e quais os perigos da indução, ao invés de focar tanto no exemplo dos cisnes (está tudo bem com o exemplo dos cisnes, mas é preciso expandir… e só um professor que percebe a matéria, pode levar a esta reflexão, mais do que fazer o que a exigência do programa lhe pede – preparar o aluno no exame para falar dos cisnes[1]), provavelmente, o aluno não ia ficar tanto sem dormir quando acha que vai ter má nota no teste e, no futuro, enquanto adulto, iria poupar o sistema nervoso e contas com antidepressivos.

É preciso conhecer e ensinar sobre como funciona a mente humana e o programa que temos agora permite-nos fazê-lo, porque é feito por pessoas que, claro está, têm uma mente humana… não precisamos já de mudar os conteúdos todos, embora também seja necessário, mas precisamos já de trabalhar com o que temos agora e o que temos agora dá perfeitamente para ensinar aos alunos, ensinando matéria, sobre como terem uma vida mais sã). Ora, se os alunos fossem preparados para indagar sobre a mente que “por pensar”, existe, o mundo seria bem mais calmo.

Mas, antes disso, o que me ocorreu foi… em que medida faz sentido continuarmos a engavetar Descartes e tantos outros conteúdos e programas em chavetas de como dar? Ou seja, estruturamos o filósofo, o escritor, a obra, numa determinada abordagem para ser igual para todos, de modo a ser mais fácil para nos entendermos, protegendo os critérios de correção de quaisquer erros ou desvios. Engavetamos o ensino, ou seja, em vez de ser algo para expandir, é algo para fechar, dar um modelo de visão, que foi escolhido como o mais fácil ou o mais unânime. Descartes pode ser dado sob várias perspetivas… David Hume ao colocar em causa a indução, coloca em causa a veracidade do nosso pensamento… ora, se não é real, se é apenas por hábito que espero que o sol nasça amanhã, porque o vejo nascer todos os dias, também é por hábito que acredito que tudo vai correr mal, ou que preciso de me proteger dos outros, ou que a professora x não gosta de mim, porque adotou a mesma postura da professora y no passado. A verdade é que é assim que a mente – a que faz/pensa para dizer que existe – pensa e podemos ver aqui um belíssimo modo de, em vez de contrapor Descartes e Hume, ainda que eles na altura se contrapusessem – mas nós já não estamos na altura… estamos a 300 anos de distância! O mundo mudou, a nossa consciência evoluiu. Mas o ponto não é apresentar aqui uma forma alternativa de dar Descartes ou Hume, é fazer ver que o professor e o tempo histórico, por tudo o que acarretam e trazem consigo de novo e de diferente deveriam ser trazidos ao ensino, capitalizados no ensino. Não é por acaso que um professor é professor de determinado aluno. Tem muito a ensinar-lhe e talvez tenha mais a ensinar-lhe do que só o “eu penso, logo existo”, acompanhado do raciocínio circular – ainda estamos para ver se, de facto, é circular, mas pronto –. Então, porquê anular o contexto do professor, do que aprendeu – no meu caso, aprendi a trabalhar com a mente que existe e a mente antes do condicionamento, possível de trabalhar através de meditação, retiros, mindfulness, entre outras práticas… e se vejo aí claramente relações com erros de conteúdos que transmitimos, que poderíamos perfeitamente usar para acordar consciências, por que razão continua a ser mais importante preparar o aluno para o exame, se lhe damos uma perspetiva estéril, em série, para ser mais fácil corrigir e estudar? Eu entendo que precisemos do exame, para já, atendendo à forma como o mundo ainda está… mas será que faz sentido não flexibilizar a forma como abordamos o conteúdo? Frequentemente, em explicações, explico “para o exame” e explico “para a vida”. Por outro lado, recorrendo a vídeos sobre a matéria – tenho reparado que funcionam muito bem no Youtube –, podemos libertar o professor para fazer o seu papel de professar, ao invés de ser um debitador de matéria. Porque, vejamos… se um computador já é capaz de reproduzir em série o que eu digo uma vez, por que razão vou continuar a repetir pela vida fora, anos a fio, o mesmo, quando o aluno pode perfeitamente assistir a vídeos, trazer dúvidas para as aulas e gerar debate, interação, questionamento? Porquê? Não acredito que o aluno não veja por ser em vídeo. Bem pelo contrário… estamos na era do digital, esta geração não gosta que lhe mexam no tempo e tem ideias – ao contrário do que possamos pensar –. Aliás, vejo pelos parcos vídeos que tenho no Youtube que os alunos, mesmo e sobretudo os alunos que não me conhecem – porque os que estudam comigo já me ouvem durante o dia –, vão por sua conta e risco, bem como por iniciativa própria, ver e rever os vídeos… deixam comentários e dúvidas… dão dicas uns aos outros… portanto, não faz sentido continuarmos a trabalhar como operadores da indústria, quando a indústria se transformou[2].

A aprendizagem torna-se muito mais rica se trago os meus próprios conteúdos, a minha própria aprendizagem para a escola… aprendo sempre algo novo, abro-me a novas perspetivas, não me canso tanto, porque todos os dias, ao abordar determinada matéria, expando – a reflexão será diferente atendendo ao estado de espírito, que é partilhado entre todos numa sala de aula, e porque não tirar partido disso?

Ouvir o preâmbulo desta reflexão (pode ouvir a reflexão abaixo)

[1] Exemplo: Todos os cisnes vistos até agora são brancos, logo o próximo cisne a ser avistado será branco. (Previsão Indutiva); Todos os cisnes vistos até agora são brancos, logo todos os cisnes são brancos. (Generalização Indutiva)

[2] Da mesma forma que as pessoas que embalavam o peixe nas conservas foram realocadas noutras funções, porque as máquinas passaram a embalar o peixe, também os professores e os conteúdos devem ser adaptados. E não temo, de todo, que a máquina substitua o professor… estamos a falar de explicarmos os conteúdos com abordagens diferentes em diferentes plataformas, retirando partido delas, ao mesmo tempo em que libertamos o tempo ao vivo, seja presencial ou online, com o professor.

Márcia Aires Augusto

#ElasDoAvesso

Áudio-Reflexão I – #VamosVirarAEscolaDoAvesso

 

Partilhar
error0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *