A Sereia e o Tango

Dizem que devo divertir-me… sair. Que faço eu se sou feliz aqui?… rodeada de livros, a descobrir pintores – Sarah Afonso… Ó Deus meu, Sarah Afonso… escrevo como quem fala, mas… não sei… gosto de estar aqui… de manta, de computador no colo, rabo preso no sofá… não tenho nada para dizer… a não ser a constatação de que sou feliz… de que a energia transborda… e de que sim, a felicidade é possível… é pena, ou é o que é, que precise de cair na treva para me lembrar de quem sou… arte, literatura, pensamento livre… pergunto-me – eles sabem – como vou viver. A pergunta não é nova. As soluções Deles devem ser. As “minhas” seriam as mesmas… gosto tanto de livros… de ver TV… de documentários… e descobri que gosto de Tango… Oh… meu Deus, Tango! Ainda não dancei, mas só de ver na TV e ouvir a música, delicio-me… acho que me trará a liberdade de que preciso… a liberdade de ser mulher… de me lançar nos braços de um homem adulto, desconhecido e dançar, deixar-me guiar por ele… talvez aí aprenda um pouco mais – e com diversão, posso crer – sobre a submissão da vida… princípio feminino a ser fecundado… é assim que vejo o tango… uma mulher, os passos de uma mulher, pronta a ser fecundada pela vida, guiada, doce, leve, mas amada… não é uma submissão infligida… não é uma prisão… é um doce enledo[1] de canto sem música… ou de música sem canto, nos pés… ai… pudesse tudo ser como é no tango… lirismo absoluto de ser uma só com a peça masculina… é assim que vejo Deus… algo que me fecunda, me fertiliza… me guia… me adoça os pés e a mente… me liberta… canta para mim e dança… pega nos meus braços e me conduz. Às vezes, acho que tenho uma imagem demasiado sexista ou sexual ou mesmo sensual de Deus… não é isso… apesar de também ter encontrado com Deus o caráter sagrado do sexo… ou, pelo menos, o estar a procurar… mas não é por acaso, não pode ser…foram já duas teofanias – God Bless Theophanies, Please – e a sensação é a mesma… boooom de coisas… a mesma sensação de todos os relacionamentos – paternal, maternal, amor, infantil, terreno, carnal – num só. É uma verdadeira wow … para quê que eu preciso do mundo? É, basicamente, esperar, sentir e esperar novamente para vir ao mundo… já tentei, da segunda vez, viver como uma pessoa normal aquando de uma teofania e não dá… é simplesmente blooming my head. À parte disso, não sei viver… estou a recomeçar… gosto de TV, do canal 2, dos livros, da Poesia e do meu amor por Deus e pela vida. Da devoção, que muito rapidamente se torna beatice, e de Amor… adoro o Amor. Descobri-o na escuridão absoluta. E Ele ficou.

Sei lá eu o que digo. Vou deixar aqui um quadro da Sarah Affonso.

(…)

Não me importo que estejam a olhar. Tenho que experimentar. Por isso, há que fazer muita asneira, cometer muitos erros até que, a dada altura, começará a correr bem. (Professor de Tango no programa sobre Tango – não sei o nome – na 2). Acho que é por isto que gosto de dança… ela ensina-me a humildade da vida… a beleza de errar… quando erro a dançar – e erro muitas vezes –, não é tão fácil soltar as garras… o ego é manso, sabe que não sabe nada… não está na praia dele… é extremamente mental… a alma tem de controlar… então, sou mansa, descubro uma descontração de braços encolhidos, de ombros doces, desajeitados, às vezes com medo, outras vezes defensivos… mas só tenho uma hora, não tenho tempo a perder com ele… e danço… oh… pudesse ser tudo como é quando danço. Ok, também gosto de me sentir a dominar e acho que para já não saberia viver sem isso… sem wow, that’s my thing… algo que acontece com a escrita… com o ensino… mas, sem dúvida nenhuma, com a escrita e com a tertúlia cultural com alunos… é lindo… não conseguiria viver sem me molhar nas minhas águas… mas aprendo na dança a leveza e a liberdade de não ser boa em tudo, de me comover com o ser lindo e luminoso, humilde e infantil que há em mim… oh… às vezes, sou tão bonita. É bom ver de novo a luz no espelho.

É bom.

(Sarah Afonso – “Casamento na Aldeia”). Parece Frida Kahlo, mas doce

(Sarah Afonso – “Casamento na Aldeia”). Parece Frida Kahlo, mas doce

Tenho notado isso… neste meu segundo renascimento – tanto quanto me lembro – as mulheres (terceiro, vá) vão sendo trocadas… a essência é a mesma… a liberdade, a pureza, a beleza, o Feminino… mas as personalidades vão adocicando… antes Frida, agora Sarah. Antes Lúcia, agora Melissa (professoras de Filosofia).

Isto é tão bonito…

(Sarah Afonso)

Sarah Afonso, A Sereia

Sarah Afonso, A Sereia

(A Sesta, José de Almada Negreiros)

(A Sesta, José de Almada Negreiros)

 

 

[1] Diz que a palavra não existe, mas é a que eu ouço e gosto dela

 

#ElasDoAvesso

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