Adeus

Hoje é de mim que me despeço

só de mim

é a mim que digo adeus

a este ser que diz que não posso

que é ego querer ser

mesmo que seja

antes um ego livre

que um ego enrugado

não posso mais

não posso mais continuar com as desinências dentro do meu corpo

os meus braços não aguentam mais

não posso

tenho um coração que se contorce na boca

que chora as lágrimas para dentro

da saliva

e dos olhos todos

não posso

hoje, sou livre de mim

posso ser escrava

mas antes escrava consentida

escrava que sabe que tem correntes

do que escrava que luta contra as correntes

e não as tira

talvez eu não as possa tirar

talvez eu ainda não seja suficientemente livre para ser sem correntes

talvez isso

talvez isto tudo

sei lá eu o que digo

sei que não posso

não posso continuar

é de mim que me despeço

é a mim que digo adeus

sei que me evidencio

que exagero no traço

que exagero no jeito

que exagero no sorriso

na anca

na sensação

na sensualidade

exagero

chamo a atenção

e tento

tento não chamar

não aceito

quero ser pura

quero ser maior do que eu

e para isso escondo-me

escondo-me porque não quero ser egoísta

mas quando me privo, sou egoísta também

não me deixo ser

ele controla-me

diz que não possa

talvez precise de outra coça – talvez não aguentasse outra agora

mas não posso mais

a primavera chegou

e os meus ramos querem sair

querem sair

eu sou toda eu lábios beijados por beijar

vaginas que escorrem

eu sou sexo nos olhos que treme

e sou pureza

e sou contradição

e sou isto tudo também

talvez, talvez a metafísica diga que não sou nada

e aceito isso tudo

desde que me aceite viver

não posso mais

vou cair

vou quebrar a cara

mas o meu coração estará do lado de fora

e talvez eu o conheça sem repressão

talvez na ausência de pressão

ele se revele a mim

e eu me reconheça

talvez não

talvez volte o ser vaidoso e narcisista que eu tanto tentei abolir

cão raivoso cheio de correntes

que o meu narcisismo e a minha vaidade sejam usados a favor do Todo

não sei que me mais lhes fazer

sou um tarado vaidoso amordaçado

sem tratamento

e os tarados não se curam nas prisões

quero ser melhor

mas não consigo mais

não consigo

não aguento mais

e se eu morrer

que morra livre nos meus erros

não nos que me incutiram

se eu morrer

que seja parva no meu orgulho

na fera que há em mim

se eu me morrer

que eu me honre na morte

lambuzei-me de batom vermelho

de gestos exagerados

amei, fui amada,

detestei, fui odiada,

pedi perdão

disse Ganesha

Fiz oração

e voltei

quando eu morrer

que morra livre de mim

mesmo que ser livre de mim seja isto agora

presa nas minhas amarras, nas minhas próprias ilusões

não sei viver sem elas

ou se sei sobrevivo

contorço-me

controlo-me

com medo do orgasmo

medo do orgasmo de mim

hoje, acabei comigo

entreguei-me a chave da cadeia…

sou livre do lado de fora e do lado de dentro sempre que quiser entrar e quiser sentir as grades de novo

sai e não sei ser feliz sem grades

não sei

o meu coração ainda precisa de ferros livres

de apetrechos

ainda preciso de ser mulher

de ser sexy

e de me afirmar

tudo um

tudo nulo

tudo verdade

só que eu não aguento

renasço naquela praia só que como hoje

de computador e teclado apontados

sou livre nas minhas asas

escrevo frenética como agora

escrevo sempre

sei a verdade

Quando escrevo

Amém.

eu sou água na madeira

lacre embutido

febre de ser sem remédio

eu sou

 

diz ele que estou a andar para trás

talvez esteja

talvez não

talvez tenha de matar a imagem que tenho de Deus

dentro de mim

talvez preciso de me ver independente do pai e do filho

talvez precise de me experimentar

é viver a verdade

não sem Ele

amo-o demais para me separar Dele

venero-o

sou sua súbdita

só não sei se é desta submissão que ele precisa

esta submissão que me adoece

que quer ser pura

sem ser

 

puta, pura, sei lá eu o que digo

sei que me adoeço

adoeço a cada flor que não deixo rebentar

adoeço a cada botão fechado adoeço de tristeza

adoeço de mim

é de mim que me adoeço

remédio para márcias, há?

elas não se calam

e eu quero ser sem elas

melhor

quero trazê-las todas

acolhê-las todas no meu regaço

quero meditar com elas quando faço poesia

quando escrevo

quando canto quando danço

 

adoeço

e por muito que o mundo diga não

que não posso

eu digo sim

morra insubordinada

antes sem regras de mim

do que com as regras da mente

antes morrer de excesso de liberdade

mesmo arriscando a prisão de ser livre nos instintos

do que a prisão de não ser livre em lado nenhum

de tentar gaiolas

ou liberdades que ainda não são para mim

sei lá eu o que quero dizer

 

eu sou de microfone empunhado

eu sou de estrela

escrita e a marfim

vim para ser esta ou outra qualquer

por enquanto, é esta que tenho

seria um crime não a viver

mesmo que seja ilusão

antes a ilusão de ser livre

do que a prisão da certeza de não ser

 

“eu preciso de tretas na minha vida”[1]

 

tenho lábios de cieiro das palavras que não digo

dos beijos que eu não dei

do amor que eu segreguei

e de toda a sedução de que sou capaz

dói-me a alma aos soluços

envolvida em Frankenstein da perfeição que eu não sou

tenho bicos nos pés

saltos altos da moral aprisionam o meu coração

não sou quem sou

não sei quem sou

mas cantar

dançar

escrever

tudo num só

são uma certeza

antes morta que fiel

antes viva

sinto-me a perder a virgindade com o homem errado

quem pode saber se é certo

antes de o ter provado?

assim é com os acompanhantes da alma

da minha cabeça dentro de mim

tenho dormido com o homem errado

hoje vou mudar

pode ser que durma melhor

que seja mais puta

e nessa coisa de ser puta

seja Pura como eu sou

in “Poesia de Cordel”

#ElasDoAvesso

[1] Jel, Homens da Luta

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