Nua e a sangrar

(um dia, disse-me que me exponho demais. Talvez seja verdade… talvez aprenda à minha custa… mas… do que vale o meu dentro se não é partilhado? Devias esconder… talvez devesse… mas nunca foi esse o meu intuito no mundo… esconder-me. Eu tento. Tapo o decote e as pernas. Tapo as ideias. Tapo o coração. Depois destapo-me toda e encontro o exagero… quero o equilíbrio. Talvez não seja esse o equílibrio… que importa?)

Eu não quero mais ensinar antíteses e aceções… eu não quero mais dividir os textos em mil pedaços, se eles são inteiros, perfeitas unidades de sentido a serem descobertas. Eu não compactuo mais com um sistema de ensino que não me faz feliz, que não me realiza e oblitera. Não sei se faço sentido, nem o que quero. Eu quero mudar. Não sei para onde, mas sei que quero e isso já é alguma coisa. Deus faça que eu aceite o que preciso de fazer o que preciso de largar…

Não sei se é verdade… se devo largar, se devo arranjar um part-time… na verdade, não sei nada. Mas sei que preciso de tempo para respirar. Nova e a fluir. Quero conhecer-me eu… era uma vez uma menina de cabelo cacheado… andava livre e dava nós nas folhas, dizia que eram os seus livros… dizia que era a sua feira do livro e um livro era para o avô, outro para a avó, outro para o pai, outro para a mãe… a escrita dá-me pureza, reconecta-me com quem eu sou. Não consigo viver sem ela. Não é ela que precisa de mim, ou precisa de me reinventar, de me usar para o bem comum, se eu a deixar. Então, peço-te, Escrita, entidade sagrada, se me ouves, se me sentes, sei que sim, se segues o meu rastro dentro de mim, das minhas dores, do sangue a fluir na minha vontade, peço que me uses para o que quiseres e que me mostres o caminho. É óbvio que gostava de poder ser autossuficiente, eu já não digo “próspera” no sentido de rica – diriam que peço pouco à vida, que estou com bloqueios de prosperidade…. Talvez… que me importam verdades vomitadas… podem ser verdades verdadeiras, mas se eu não as sinto como verdade, de nada valem… a minha pseudo-humildade pode ser só medo… pode ser antes insegurança e não acreditar no meu valor e pedir… mas pedir o quê? Deus sabe o que é certo e o que preciso. Se preciso ir para um part-time para me sustentar, eu irei. Se isso me faz feliz? À primeira vista, acho que não… mas também não sei… Deus, faça-se a Tua vontade sempre. Mas não posso exigir à vida que me sustente com o que eu quero. Há um plano maior. Não me soa pedir a Deus para que faça com que lance um livro e isso me sustente… por muito tentador que seja. Não sei o que é o real, não sei os planos de Deus para mim, nem tenho o direito de desejar o que não é para mim. Pode ser, mas se for, chegará independente do meu pedido. E, se não for, é porque não é para ser e deixei de dar força ao ente que acha que está separado. Por muito que me custe, Deus sabe do que preciso, Ele está em mim. Eu quero ser feliz e Ele sabe o que fazer para isso acontecer. Que eu seja como uma flor, que flui e confia na vida, mas não espera estar viva amanhã. Meramente flui, vive a ser flor no agora. Às vezes, acho que estou a ser falsa puritana… outras vezes, acho que estou muito elevada de pensamentos face ao que era antes… nem uma nem outra sou eu… eu quero ir para Aquela que está além, além do eu que pensa que é isto ou aquilo e que sabe a verdade, sabe o que merece e sabe o que fazer… eu quero Ser. A segurança fácil de uma flor a crescer, que cresce para a morte feliz e altiva. Não sei quem sou, mas o que quero. Sei que quero escrever. Essa verdade acompanha-me desde sempre. Nunca pensei muito a sério nela, no sentido de viver disto… na verdade, para já, parece-me impossível e talvez isso se viesse a revelar o meu cárcere, por instrumentalizar o que há de mais vivo ou não… ou não… talvez seja possível unir os mundos… talvez eu possa… é claro que há sonhos… fantasias… ter uma renda mais ou menos fixa e tranquila dos livros como vejo tantas miúdas da minha idade… mas quem quer? Quem idealiza que esse é o caminho? Por muito tentador que seja, não posso saber se esse é o melhor caminho para mim… se isso não me priva de conhecer outras coisas e outras realidades… na verdade, se o outro livro tivesse vendido logo imenso eu não era quem sou hoje nem teria conhecido as pessoas que conhecia e não trocava isso por milhão nenhum. Então, restam-me as certezas… as certezas de que quero escrever, a troco de nada… a troco de vida, sem trocar nada, porque ela me dá tudo… eu, se quiser, que aproveite a cura e a vida que ela me dá através da escrita… partilhar com quem quiser, mas isso já é um segundo momento… o que importa, o que me mantém viva, é escrever… para além e antes de lerem o que escrevo… escrever é a grande premissa de tudo… o início e o fim. Sei que quero dar ideias e intervir no plano do modelo educativo. Gostaria de deixar um plano feito – talvez seja ego… quero “fazer”, embora saiba que o que faço não vem de mim nem da sabedoria do mundo ou do eu construído… vem de algo intrínseco e perfeito, que conhece todas as variáveis do mundo, todo o fluxo, todas as necessidades, tudo o que está por acontecer e que já aconteceu e que nos dá uma solução adaptada… ora, não é uma mente humana que sabe fazer isso… sei disso. Acho que sei o meu lugar (de vez em quando). (…) quero, meramente, estudar, aprender, ler muito e, da minha experiência, do que sinto e, sobretudo desta Mente, deixar algo estruturado para o mundo usar – talvez isto seja megalómano… mas, pelo menos, que possa deixar ideias… há uma parte que quer viver à margem disto e outra que quer ser reconhecida… lembremo-nos de Marco Aurélio “Em breve, tudo estará esquecido. Em breve, estarei esquecido”. Quem me dera ter essa grandeza… a grandeza de lidar bem com o facto de ser nada, com o facto de ser grão… ainda quero aparecer, penso que se lerem vão gostar… sei que é vão, que não sou eu… mas é incómodo o que sinto. Gostava de ser grande, mas grande é diminuir-me.

Faça-se a Tua Vontade, meu bom Pai. Amo-te.

Mostra-me o caminho e eu seguirei.

 

#ElasDoAvesso

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