Uma gata, uma mesa e um ritual chamado escrita

(depois de escrever, só uma coisa me alegra mais, ver escrever)

12/03/2019

Do passado guardo a beleza dos rituais, a harmonia e a beleza de uma gata que se junta a mim enquanto escrevo. Ela sabe a verdade. Quando morro, é nas minhas quedas que me conheço. Às quedas? Obrigada. Sem elas, como me conheceria? É nas quedas que sobra o verdadeiro, isento de gordura, de nervo… é nas quedas que vamos ao osso, ao sangue e à vida, ao essencial para sobrevivermos… copio-me a voz ou ouço-me a voz de novo. Nas quedas, reconheço a verdade… a escrita volta para me salvar… antibiótico, macrobiótico, sei lá dessas bioses… volta a vida. Sobre o que resta e que foi bom do passado, o que serve ao presente… a beleza dos rituais… uma mesa aperaltada para eu escrever… não se escreve de qualquer maneira… quer dizer, escreve-se… mas da mesma forma que não se recebe um amante na primeira noite de qualquer maneira, também não se recebem os deuses da escrita de qualquer maneira… é que é sempre a primeira vez… é essa a beleza de encontrarmos o dom, a fierce humana, onde reside Deus… aí somos invencíveis… eu sou assim na escrita… não me tomem a mal… não pensei que sou vaidosa, sou… mas não é o caso aqui… aqui, independentemente de gostarem ou não gostarem, escrevo. É um caso de saúde pública. Não dá. Fica energia armazenada, tem de sair…

a criatividade é um deus morto se não se dilui em ação.

E eu não quero morrer, não quero que Ele morra em mim. Preciso Disto, de estar viva. Devo a vida à escrita, aos livros… se há terapeuta que me tenha curado? A escrita, em forma de Deus camuflado. Obrigada.

(Arrepiam-se-me os braços como no primeiro dia. Escrever? Escrever é para toda a vida).

(Conheço esta calma, é a calma da verdade. Espero não me enganar de novo. Talvez me engane, mas vou mais prevenida e sei que tenho uma casa para voltar, não para explorar, não para existir… para me deitar, puxar os cobertores e descansar de estar viva, estando viva a sério… é assim a escrita para mim. Eterno amante, sempre pronto a receber. Amo-me, quando escrevo. Amo a vida, quando escrevo. Talvez esteja aí a verdade. Verte tudo, escorre tudo sem esforço… eu não tenho de fazer nada… é só discorrer… ocorria-me hoje que viver é como fazer amor… por isso, gostamos tanto… é fluido… vamos atrás do que faz bem, sendo o que faz bem… não há separação entre o que é e o que fazemos. É assim que me ocorre na escrita. Quando fiquei doente – ir para Deus num caminho que não foi designado por Deus também é doença –, tive de ser filósofa pela primeira vez. Analisar mundos, copiar e transferir modus operandi para me salvar… percebi que, se queria ser feliz, teria de ser exatamente como sou na escrita, na dança, na música… sou, faço, fluo, fundo-me. Não quero saber se está bem ou mal, é o que é e honro. Amo o que é, fundida no que se apresenta, que sou eu a ser… não quero com isto dizer que não me melhoro, ou que aceito todos os devaneios da minha mente… é que eles simplesmente se calam, quando eu sou, quando eu estou no agora e me deixo ser… é óbvio que há uma Poesia qualquer que se impõe no meu modo de estar quando escrevo… mas é óbvio também que essa sou eu e que é nessa que eu quero estar.

#ElasDoAvesso

Jasmim na mesa

 

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