Quero lá saber do correto

Três anos a meditar como uma louca, a anestesiar o ego e a mente… Uma voz não para de perguntar “are you cheating on me”?

Quisemos meditar para estar no momento, mas tudo o que conseguimos com medalha e afinco foi sair do corpo e rejeitar o que não era bonito.

Reconheço e honro o que aprendi. Estou muito melhor pessoa, mas é hora de deitar abaixo velhas estruturas. O ginásio definiu um six-pack, mas nem por isso passo lá a vida. Quis um six-pack na mente. É esse o caminho? Engavetar a mente numa perfeição que não lhe é natural nem útil? Elegância demais oblitera. Perfeição a mais executa-me. É assim que me sinto, executada na mente. Às vezes, chego-me e toco-me a Mim. Sou bonita e infinitamente perfeita. Sou bondosa e sou incrível, quando Sou. Mas não sou isso o tempo todo, ou não tenho consciência de que sou Isso a tempo inteiro. No resto do tempo executo-me, mutilo a mente, assassino-me vezes sem conta.

Perdi-me de mim para descobrir quem sou, descobrir que estava tudo bem com aquela criança que brincava na terra e ria. É para lá que quero ir. No tempo em que um caracol era só um caracol. No tempo em que não havia xamanismo nem significados ocultos. A vida era o que se apresentava e o que eu sentia. Matávamos sem querer um caracol com os pés e fazíamos-lhe uma cerimónia fúnebre com ervas da eira. Era sentido e libertador. Ninguém sentia culpa. A vida era o que era e honrávamo-la por isso. Não meditávamos nem rezávamos muito. Éramos simplesmente normais. Tínhamos medo, chorávamos mas esquecíamos a dor, atirávamo-nos ao chão e perdoávamo-nos por isso, além do “balázio” que furava a barriga. Era simplesmente Eu e não perguntava quem eu era… Ok, às vezes, no espelho perguntava de onde vinha, mas, no resto do tempo, era simples como o libertar de um rouxinol… Tinha sono, comia demais, fantasiava sobre coito, lia exageradamente, escrevia desalmadamente e perdi-me. 15 anos (ir)remediavelmente perdida. Há três anos dizia “que se lixe o mundo”, hoje digo “que se lixe a minha mente” e pego nas chaves, de volta.

Às vezes, perco-me, mas tudo bem com isso. Que seca meditar todos os dias, que agonia rezar até o coração apertar… O corpo é feito para mexer, alma latente a querer mover. Eu canto a libertação, quero lá saber do correto.

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