Sexo e útero, por favor

Aprendi a amar a liberdade ladeada, soçobrada por grades. Ladeei o tesão, disse-lhe que ele não podia, mas, o pior de tudo, ladeei-me a mim. Enfiei-me numa gaiola, promovi-me a brilho sem penas e fiquei. Fechei-me por dentro e achei que o mundo em grades era normal. Fechei-me, fundei-me no meu próprio fanatismo para me esquecer de mim. Foi na perda de mim, ou na iminência da perda, que me encontrei, que não permiti mais à minha cabeça que me dissesse o que podia e não podia fazer. Conheci a dura repressão da sociedade na minha própria cabeça, agora não havia ninguém para culpar. Só eu e nem a mim. Perdoei-me nas cinzas, porque era só eu e ela. Vi-a. A cópia de mim, demónio de mim. Ela ainda fala, mas eu não a ouço ou tento não ouvir. O coração aperta, fundamento-me, autorizo-me em cartas, desisto de mim porque elas dizem que não. Foi na dura repressão de mim que encontrei a liberdade, é no oposto que toco a coragem de experimentar o inverso, o avesso de mim… Talvez exagere, mas quando morrer não poderei dizer que não vivi ou que morei estranha de mim. Conheço bem os meus fantasmas e as minhas fadas eruditas. Conheço “o terror e a claridade” (Sophia, avó-poesia). Não o nego nem a venero. Caso-os como uma pilha. Ser mulher e ter um buraco ensinou-me a ser fecundada pelo que não sei, pelo e o que não conheço, eterno mistério de me abrir. Vivo em eterno sexo com a Vida e espero que ela me coma toda, agora, eu aqui, submissa e submersa para que ela mande. Abrirei molhada ao que não sei, sempre que ela venha. Fecharei, respeitarei os meus limites, sempre que ela me seque de mim. Sexo, eterno amigo, professor incompreendido, moira de mim, ai de mim se não me conheço.

#ElasDoAvesso

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