Cartas de Amor a J. V

Márcia Augusto

Sei que me temes a treva. Sei que corro o risco de nunca mais saber de ti a partir de hoje.

Também sei que te disse coisas duras…Coisas, algumas, que, provavelmente, não são verdade e foram o fel a falar, o fel que tu me provocas.

Porque eu não te sei amar, não sei isto de ficar vulnerável com alguém. Não sei isto de poder sofrer as texturas, a tua pele rugosa na minha a ser. Tenho medo de te amar. Continue reading

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Do lugar onde eu não preciso de asas

Às vezes, fico com saudades de casa… quero voltar… como se soubesse que o meu lugar não é cá… que eu não sou de cá… fico com saudades de quem eu sou… a paz que eu sou onde não há mundo… isto que é o mundo a magoar-me, isto que eu deixo fazer-me esquecer de quem eu Sou… porque eu não sou isto… estas lágrimas… esta dor que me dilacera… esta faca… este metálico fatal que me parte ao meio… como se eu fosse duas… isto que me dói nos olhos… no corpo a ser…

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A única tarefa do mundo

Às vezes, eu só quero ser eu a ser… livre… andar no mesmo ritmo que o coração me pede… devagar… ouvir os pássaros a ser… ouvir a vida a ser livre.

Gosto de atravessar a rua para ver as borboletas… gosto de as sentir nos dedos… gosto dos pássaros nos meus ouvidos… gosto de como o meu coração desacelera… acorda com a Terra… de como o meu olhar turva, só porque eu quero, escolho ouvir…

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Eu de mim a mim mesma

Deslumbrei-me…. os olhos tomaram-me os meus olhos… meus, mas não eram meus… ou quem eu sempre fui, mas tive medo… ou fiquei petrificada…  sem me mover durante uns cinco ou sete minutos… tomada pela Verdade… pelo o susto bruto de mim… pelo baque de mim, de quem eu Sou a mim mesma. 7

Os olhos ganharam uma luz própria… assustadora, porque veraz… não havia corpo (nem tempo)… só os olhos; o corpo suportava a luz, a mensagem dos olhos.

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PREÂMBULO (DO QUE É) ORIGINAL

Saudades de estar. Saudades de corpo, de sentir gente… de olhos que me lembrem, lembrem de Casa… de pessoas que me lembram de sorrir, ou que me fazem sorrir, só de pensar nelas, quando Estou.

Saudades de prestar reverência à vida… o mínimo que lhe posso prestar.

Saudades de sorrir com os olhos, as têmporas e a pele rasgada a fazer-me una com tudo, como uma pele que quer sair para se unir com o resto que eu não vejo… sorrir a desconhecidos ou receber os olhos deles… que são tão meus, tão Eu, tão no Todo, na viagem.

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