Gaiola sem voo

2018 tirou-me muita coisa, mas deu-me uma, a mais importante de todas, a certeza de que gosto de estar viva. Nunca tinha pensado nem sentido muito isso. Atingi picos de iluminação, senti vazios absolutos… Calma absoluta… Percebi que ainda não quero isso para mim. É preciso ter coragem para dizer, afinal eu não quero ser iluminada. Eu quero estar viva, aproveitar o momento com o coração no tempo dele, sem divagar, sem mente… Gosto de olhar para o “o outro” e vê-lo sem filtros. É a melhor “droga” que há neste mundo. Ver o “outro” com amor, não tingido pelas minhas crenças… Nada há de mais maravilhoso do que ver-me no outro. Aos poucos, convenço-me de que a pureza que está nele está em mim. Escrevo para não me perder de mim. Escrevo para não enlouquecer, para semear ideias e podar outras. Escrevo para ver quem sou no momento. Não sei se falhei – acho que não -, mas sei que Ele está comigo. Sei que foi assustador perceber, pensar com a mente, “isto não significa nada”. A aceção de nada ter significado é assustadora. Não porque isso seja assustador, mas porque cheguei lá com a mente. Queria iluminar-me, mas esqueci-me do coração. Fiz tudo certo e aprendi muito… Mas não aprendi o essencial… Estar no momento, aproveitar cada momento, amar e valorizar o outro… O chão, o sol, e o outro… Somos todos o mesmo. Falta-me amar a todo o momento, de forma igual. Para lá caminho. Só há uma forma de o fazer… Amar agora. Sabemos muito, amamos pouco. Quando penso nas várias profissões que já tive, penso… Tornei-me determinada coisa, porque a pratiquei. Não bastou estudar. Ensinei português, porque mais do que estudar o pratiquei desde cedo. A mesma coisa com a filosofia. O que fazer com o Amor? Acaso amei? Acho que sim… Há momentos em que tenho a certeza de que o amor tocou e viveu no meu coração. Curiosamente, não foi nos momentos de namoro… Às vezes, com a família, mas, sobretudo, com desconhecidos na rua. Há desconhecidos que amei na rua… Dei sem esperar nada. Dei, porque o amor não cabia em mim. Nesses momentos, Ele estava em mim, como está sempre e servia-Se de mim. Não quero ser injusta e dizer que o resto não serviu para nada… Porque o que estudei – não o conteúdo, mas o horror do que passei enquanto estudava, praticava com a mente – atirou-me para a rua. Vi-me perdida, sem personalidade, sem crença, sem saber como viver o amor sem os livros. Na verdade, ele ainda não tinha saído das minhas orações. Foi quando desisti que a rua me salvou. Saí e vi amor em tudo. Dei amor. Foi aí que me perdi para me encontrar de mim. Ainda me perco no palheiro, mas já sei que sou a agulha, já dá para me sentir diferente do palheiro de mim, da imagem de palha que eu fiz. Às vezes, vou à palha, porque erradamente custa-me ser agulha a todo o momento, ou, para ser agulha, eu preciso de a ser, sem a pensar racionalmente… É só pensar que sou a agulha, para deixar de ser… A mente atrapalha… Atravessa-se. Só há uma maneira de ser, que a mente não estraga… No agora. Só posso ser agora. Eu sou, presente do indicativo. Ainda tenho medo, dou letra ao palheiro… Temo perder-me…mas é na rua que eu me sinto agulha. É na rua que eu assisto aos milagres. É na rua que a luz me convoca e me usa. É na rua que eu agora sou precisa. Talvez ainda não tenha aceitado bem isso. Mas nada me concretiza tanto agora como passeios ou estar onde tenho de estar… Livre… Disponível como uma flor que se dobra pelo vento… Não sou sempre essa formosura, mas estou mais atenta à palha. E o que importa isso se O encontrei em mim, quer dizer, nos outros? Só posso ter a certeza de que Ele está em mim e sou eu, quando O vejo nos outros. Quando o ato involuntário do Amor me toca por dentro e me guia. Uma certeza me fica e me guia: amo amar. Obrigada, Deus. Obrigada Jesus, Espírito Santo, Anjos, Luz! Obrigada, Céu e Terra.

Não nego mais a terra. Gosto dela. Por muito que tradições a neguem, há um coração aqui que bate, que me diz o que quer. Provavelmente, não me quero iluminar agora. Provavelmente, isso acontecerá quando for a vontade de Deus. Digo isto porque a vontade de Deus é felicidade para mim e mesmo que eu não saiba exatamente o que ela é, sei que não é a tristeza, o vazio que senti… A ausência de vontade. Dei por mim sentada numa mesa e percebi… Ok, estou sem vontade para nada. Será que é isto iluminação? Não pode ser. Todos falam do vazio e do neutro. Tudo muito certo. Parei, porque o senti, Deus deu-me o gostinho e eu percebi que não era ali que eu queria estar… Vozes ecoam na mente… “tens medo da luz”… Desisti de lhe dar ouvidos. O meu lugar é onde eu sou feliz. E garanto que, por agora, não sou feliz sem desejos, pelo menos sem todos eles… Podem ser ilusões… Claro que são, mas enquanto há uma parte da identidade aí, o que fazer? Lutar comigo? A vida é sábia. Deixei de querer ser do marketing , quando teve ser… Deixei de querer ser iluminada, quando teve de ser. Agora quero ser amor, quero descobrir amor, quero continuar no caminho em Deus. Foi a Ele que encontrei. Acho que o ego morre no próprio veneno de novo. Quer tudo, mas a ambição que o mata, faz-me descobrir o essencial. Mentiria se dissesse que não quis assim. O novo chama-me. Não sei o que virá. Ser livre também é ter a coragem de gostar de uma gaiola. Entre a gaiola e o voo, assim me defino. Entre o familiar e o novo. E o que é uma criança senão isso? Gosto de ser sem receitas certas. Nestes dias, tem começado uma vida nova, que ainda não sei qual é. O ego fica todo vaidoso, porque se acha muito corajoso quando tem de começar de novo. A questão é que, agora, sei que a coragem não vem dele. Vem de algo maior, que me criou e que me impele para novos ventos. Foi Ele, foi sempre Ele. É só que me confundi. Gosto de torres e de destruir tudo, que a vida desfaça tudo o que não preciso… De perder o fôlego para o que já não serve… De notícias dentro de mim… Do noticiário de dentro… Que me pede soluções novas… Que deita tudo abaixo. E que bom brincar nas minhas ruínas. Felicidade é onde o coração está em paz. Por muito que o ego tenha dito que eu deveria ser livre de todos os apegos, há uma voz que me diz que quem decide isso é a vida. Os apegos que há para destruir a própria vida desfaz. Queremos ser professores de nós próprios, mas da mesma forma que só um professor de Yoga nos pode ensinar Yoga, só a Vida nos pode ensinar sobre Vida. Posso querer ser um bom aluno, mas mesmo o 20 é uma seca… Há sempre algo a melhorar… O 20 sabe do que falo. Há sempre algo mais a aprender, a apologia do 20 nunca é verdadeira. O verdadeiro 20 sabe que lhe falta algo para aprender. Não se chateia, vive, trabalha, ama e pratica o que estuda… Mas sabe que nunca acabou. Quando achar que acabou, a vida naquela disciplina acaba. A Vida só pode acabar na vida, quando a morte chega.

(As reflexões de fim de ano são sempre as melhores… Não somos nós, bonecos de palha. É o espírito Dele em nós, em constante renovação, a pedir novas matrículas, novas escolas, novos conteúdos e, sobretudo, novas formas de chegar ao coração! Feliz 2019!)

Código-Alma

(Os textos não são meus. Descem por um canal de verdade em mim para me ensinar o que sou/somos. Faz lembrar Lobo Antunes… É uma voz que dita. A diferença é que, cada vez mais, me identifico com essa voz. Não decido com Ela a todo o momento. Mas ela ensina-me Quem eu sou. Amor puro e abnegado. Eterna criança que só quer ser. A mente diz que estou armada ao carapau, mas, e se, uma vez na vida, uma e outra vez, a cada agora que se renova, eu escolher paz, quer dizer não ouvir a o que ela diz? Paz é o que eu sou. Absoluta aceitação do que estou; o que eu Sou é perfeito, não precisa de aceitação, precisa que eu O queira Ser. Que isso me baste)

O AMOR comove-me. O AMOR foi a maior descoberta da minha vida. Comecei para ser “alguém”, descobrir quem “eu” era e o que queria. Acabei a descobrir que ser quem eu sou me impele a ser nada. Ainda acho que estou muito errada em ser nada, mas quando sou nada, eis que a paz emerge, o AMOR atua e o milagre acontece. Quando sou nada, acabo no sítio certo, à hora certa, Continue reading

Quem Sou Eu?

Pela primeira vez na vida, admito. Eu não sei quem sou, mas há algo de Real em mim. (quem sou é nada, é produto; O Que me dá a Vida é Tudo)

Pai, este ano, já abri mais documentos word do que sei lá o quê… não comecei nada, mas também não era eu a começar… era uma máscara. Quis ser elevada, falar para Ti do alto da escada, quando ainda estava no vão… no vão cá de baixo. Não fui capaz. Será que não fui capaz ou fui capaz do que eu tinha de ser capaz? De desistir. Não sei se estou enganada, se a Vida virá reclamar-me, quando eu preferi/prefiro ficar no vão da escada, na vida pequena, na vida “mesquinha” (pode a Vida ser mesquinha?). Morri de mim. Morri de querer do que não quero. Na verdade, retirei o ego das empresas para o colocar em Ti. Antes, eu queria ser a melhor no Marketing… depois, a melhor na escrita… depois, a melhor nos vídeos… a Melhor… nunca eu. Eu não sei se sou eu a fugir… porque, afinal, não somos nada. Será que eu quero

(Aquilo que agora está perdido é a chave da porta seguinte – Flaira)

criar outra personalidade? Será que é o ego a reconfigurar-se de novo numa outra coisa qualquer, visto que o caminho é não ser ninguém? Lido tão mal com a ideia de não ser ninguém e, ao mesmo tempo, respiro fundo na liberdade de ser nada. Não sei. Sei que dei por mim a ser papagaio do que não acreditava. Um Curso Em Milagres, a reviravolta da minha vida, dava-me paz… Tanta paz, Pai… até que decidi ouvir outras versões, achar que a minha estava errada e as dos outros estava certa. Provavelmente, nenhuma está certa – afinal, preferes estar certa ou estar em paz? Talvez eu não tenha percebido a profundidade e o alcance disto. Talvez eu não tenha entendido que ninguém está certo e que a única coisa certa é o Amor. É o único centro onde não há erro, porque prospera, porque não separa. Será o sexo errado? Será tudo errado? Certo que a matéria é prisão… mas o que fazer enquanto ainda queremos estar presos? Este final de ano serviu também para me aceitar onde estou. Às vezes, tenho medo que Deus me leve para andanças que eu não quero. Sabes, não quero ser iluminada. Não agora. Quero ser melhor, quero amar mais, quero ser menos vaidosa, quero amar o outro, quero que as separações (ilusões) caiam… quero olhar o outro e amá-lo profundamente, perdoar como tu me perdoas a cada segundo… tudo isso este ano me trouxe… Este ano trouxe-Me a Ti. Dói-me o peito. Medo de ti, medo de não conseguir ser o que me pedes. Tenho medo que queiras que me ilumine nesta vida. Não quero. Aperta-me o peito. Quero ir com calma. Quero saborear a vida, não excluir nada nem ser escrava de nada, embora, neste mundo, saiba que serei sempre escrava… da carne ou do espírito… Serei fiel ao que me der vontade (Flaira – Atriz, Cantora ou Dançarina). Continue reading

Obrigada, Pai

Porque queres o que tu queres? Quando me fiz esta pergunta, não sabia responder. Queria ser iluminada, mas ainda não queria Deus. Isso me fez parar. Me fez perceber que querer iluminação envolve um coração grande, que ainda não havia em mim. Dias mais tarde, percebi que eu queria ser iluminada, porque queria resolver a vida. Queria ser rápida a resolver a vida. Rápido. Não necessariamente bonito, belo ou amoroso. Feito. Desisti. Caí. Senti a culpa de anos e horrores em cima de mim. Senti-me um fracasso, uma cobarde… Um serzinho armado em tretas, achando que podia dizer não a Deus. Acho que percebi que quando dizia não a Deus era Deus a dizer sim. Talvez tenha descoberto que não há nada que eu faça que não seja vontade de Deus. Não sei. Digo isto e ainda não acredito. Que importa? “Abandonei” Deus naquela praia, achando que fazia a maior asneira da minha vida e descobri-O porque desisti Dele, porque admito que Ele era demasiado grande para mim. Que as suas escolhas não eram as minhas. Depois, descobri que, afinal, eu não posso escolher à parte dele e que mesmo aquele “erro” não era um erro, fazia parte do plano. Várias vezes me tenho perguntado como seria possível que se Ele não deixou o plano de uma Flor ao acaso, como poderia deixar o meu? Descobri que é sonho, mas não senti no coração. Descobri, colecionei conhecimento, mas não aprendi. Aprender envolve amor. Eu já não tinha amor no que eu aprendia. Fazia, porque era suposto. Descobri, pelo menos, que nada com Deus é suposto. É ou não é. É amor, e às vezes não o percebemos como tal, mas é, ou não é de todo e isso significa que não é nada. Decidi doar as minhas armas e desistir. Momento mais sábio da minha vida. Não sei para onde vou, mas sei que Ele me guia. Que Ele é inexorável em mim. Que Ele me Ama, faça eu o que fizer. Ele não reconhece atos, reconhece coração, a intenção, o amor nos atos. Em nenhum momento me senti abandonada ou julgada, quando, naquela praia, lhe dizia, Pai, eu não consegui. Naquele momento, escrevi com uma corrente de força que não era minha, mas que estava em mim. Quando desisti, encontrei Deus. Secretamente, sabia que esse era o meu fim, que é também o meu começo. O coração guarda o essencial. Colecionava e me deslumbrava com histórias de pessoas que O encontram, quando desistem dele. Ainda não desisti do mundo, nem dos afetos. Continuo com apegos. Amo a minha mãe e os meus gatos e não conseguiria agora viver sem eles. Acaso Ele me julga? Claro que não. Pedi-lhe novos caminhos e Ele não esperou para me dar a resposta. Hoje, não sei quem sou, mas sei que Ele está em mim. Não espero estar certa, embora o ego mo exija. ele, do “e” pequeno, ainda está aqui, ainda me comanda, mas nem aí Ele me julga. Não sei para onde vou. Hei de fazer muitas cagadas, mas Ele está aqui. Esteve sempre. Obrigada, Pai.

Sobre domar os seus próprios cavalos

Descobri que não meditamos para Deus nos amar mais. Não rezamos para Ele nos amar mais. Oramos para que nos lembremos que Ele nos ama. Sei que não é pelo que eu faço que Ele me ama, mas é pelo que eu Sou. E o que eu sou não muda. Descobri-me como um cavalo, um cavalo que precisa de ser ensinado. Não domado. Pelo amor. Descobri que é o Amor o que eu sou. Que nada nem ninguém pode mudar o que eu sou. Que tudo o que está “fora” é uma condição instantânea de dentro. Posso ver um filme e ser exatamente o mesmo filme que está traçado ver naquela hora. Mas a condição que vê o filme sou eu. Continue reading

Até quando, Filho de Deus?

Criámos produtivos ao invés de seres humanos. Quanto menos produtiva sou, mais producente me apaixono. Criar a partir do centro que se chama coração. Chega de fórmulas, chega de divisões. Chega de melhores, de doutores e de engenheiros, porque isso só dividiu o Homem. O Mundo e feito e parece imortalizar-se nos feitos que vêm do uno, do que não deseja para si mesmo, mas antes cria a favor e serve o todo que está consigo mesmo. Sem o Todo eu nada seria. Eu só posso existir se eu considero que o Todo, que a humanidade toda existe dentro de mim. Se eu acho que ela vive separada de mim, serei transeunte. Poderei saber que estou a sonhar, mas em nenhum momento terei a síntese do Uno, a síntese do Amor. Sem vocês, eu nada seria. Precisamente porque não há eu e vocês, há Um. Há um interesse Único que favorece a Todos. Enquanto não me enamoro Dele, nada crio, porque nada sou, porque apenas produtiva. Vamos deixar as produções de lado e aclamar o querido Deus vivo que está em todos, que e o Mesmo em todos. Sem vocês eu nada seria. Continue reading

Sou dona da minha fé

Sou dona da fé, dona dos meus pensamentos. Tudo pode acontecer, parecer fora de mim, mas há uma coisa que bandidos e noite não me podem tirar… O poder de decidir onde coloco a minha fé, no mundo do irreal ou no mundo do Único Pensamento. E eu tomei a minha decisão. Está tomada. E eu sou livre. Oh… se sou, Pai! Uma coisa não me podem tirar: a fé que deposito nos meus pensamentos. Podem tirar-me tudo menos a escolha. A escolha do real. Continue reading

Campos – Trova do Uno

Muito se fala de Campos… o homem da máquina, o poeta dos maquinismos em fúria… mas urge perguntar: trata-se de tanta fúria assim? Trata-se mesmo de cantar a Máquina, ou trata-se de outra civilização encoberta?… O pensamento que subjaz à máquina? O unicismo, ou o unanimismo, como o movimento francês lhe chamava…

Mas, ainda assim, parece-nos… urge ser mais do que isso. Pessoa, esotérico e exotérico, como a sua Poesia lhe exigia… não devia “deixar barato”, muito menos deixar coisas por dizer ou ainda dizer por dizer. Nada é ao acaso em Pessoa. Homem das letras, mas, antes de tudo, um filósofo, um minucioso pensador que não desistiu nunca da pergunta fundamental – Para que serve tudo isto? Continue reading

Ricardo Reis – o indiferente ou o injustiçado?

Um contador de estórias em ode, um anunciador da Verdade sem império, um verdadeiro latinizante, porque a Verdade pede glória e a glória exige eruditos, não que a erudição lhe chegue, à Verdade, mas cabe-nos a nós, humanos e humildes ofícios da Verdade, cantá-la com nobreza no tom estoicista a que ela obriga. A Verdade passou ao lado, mas nem por isso deixou de lá estar. Este é Reis, mais a descoberto… mais desnudo, talvez, do que ele gostaria… Continue reading