Monólogos

Sobre  o novo projeto-livro «Monólogos» do #ElasDoAvesso.

«Monólogos» começa no mar, ou talvez nunca tenha começado, porque nunca acabou e sempre foi a forma de eu me expressar… mas tendia a torná-los textos… para as pessoas acharem mais normal, de um nervoso e angustiante fit needing, que eu não quero mais… não quero mais caber, porque a minha missão é precisamente não caber, ficar fora dos lugares, ficar de fora… preciso disso para ser. Ser quem eu Sou. Fora das estruturas. É aí que eu ganho força. Acho que durante 28 anos quis caber. Mesmo quando eu deixei o Marketing, as empresas e as secretárias… eu queria caber, queria ser aceite… hoje, eu não quero mais. Hoje, quero a coisa mais absoluta que eu posso querer… Ser eu. Mais do que isso é capricho. E eu estou farta de caprichos. «Monólogos» não tem pontuação ou subverte-a, também não tem quebra de linha certa… Monólogos é como a Voz fala. E, agora que a encontrei de novo, eu não a posso deixar ir embora, ou simplesmente camuflá-la para ficar bem. Estou farta de ficar bem, de parecer bem. Continue reading

Monólogos II

De uma nova série, chamada “Monólogos”. Este é o segundo, mas foi o primeiro que quis transcrever e começa assim:

Recupero a menina de antes

Antes de o mundo me ter partido

Ou antes de eu me ter deixado partir

Navalhar por dentro

Sempre serei, sempre fui, sempre vou ser

A menina que não queria ser nada

Mas que era tudo

A menina que ouvia música a ouvir o mar

Que se recuperava no mar e na areia Continue reading

Não se vive da Arte, a Arte vive de nós

Às vezes, as pessoas perguntam porque ainda não fui mais longe… ainda não estou com uma editora assim e assado, ainda não tenho mais livros nas lojas… ainda, ainda, ainda… as pessoas querem achievement and So do I, aparentemente… mas, há pouco pensava e gemia entre lágrimas, abafava-me em choro e dizia, eu ainda não servi a arte, a literatura… ainda não me voltei para Ela, como o Saramago fez, aos 60 anos, espero fazê-lo mais cedo, e lhe disse, lhe perguntei, Como te posso servir?[1], ainda não me sentei para escrever e ver se tinha alguma coisa de jeito para dizer[2]. Escrevo para me sentir bem, porque preciso, porque, se não escrever, eu corro o risco de enlouquecer… escrevo para me desenvencilhar de estados de alma Continue reading

O Verão e Uma Voz Abafada na Rádio

O som vem diferente no verão, abafado, por debaixo do rádio. Parece que se funde com o ar. É bonito o Verão. Para mim, a estação mais bonita do mundo.

Arranha o ar. Promete coisas. O som do Verão. E é também um carro que passa. Um gato que se atravessa no caminho do passeio. O Verão é poesia nos olhos. É para isso que serve o Verão. Lavar a mágoa do inverno dos olhos. Os carros prometem sexo e amor e tudo o que lhes apetece no Verão. No Verão não preciso de ir a lado nenhum. Basta-me ficar a ver, a olhar o Verão. Continue reading

Textos para Entender Saramago e Cópias de Madrugada

Este é um repost do Facebook do “Elas do Avesso”. Gostei tanto do post, que decidi colá-lo aqui, para que não se perca e faça parte daquele que será o Volume II do livro “Elas do Avesso”.
Textos para entender Saramago. Sugiro sempre que façam cópia dos textos dos autores, mesmo que não entendam para que serve. Tentarei explicar aqui… A cópia articula processos mentais que normalmente não trabalhamos, quando apenas lemos. Quando aprendemos a escrever, o que é reforçado? Cópia das letras, cópias das frases, cópia de textos… Se me perguntassem onde gastei mais tempo na minha vida, diria, talvez, na casa de banho, porque não posso evitar, a fazer cópias e a escrever. Sou produto de todas as cópias que fiz, de todos os textos que li… lembro-me de entregar cadernos e cadernos de cópias na primária, que ia fazendo durante as férias, ao professor… ao início, ele não acreditava que era eu, depois percebeu que teria de haver uma estranha obsessão incontrolável, irreparável, inelutável em mim face à cópia, à escrita… com a minha ou a inspiração dos outros, eu haveria de escrever… lembro-me de usar o botão duro do pause nas cassetes que gravava na rádio, enquanto transcrevia o que ouvia… os meus diários eram intermináveis… de inconfessáveis meus (se há quem nem às paredes confessa, eu, aos papéis, confesso tudo), de músicas, de poemas, de cópias… foi tudo invariavelmente para o lixo, quando achei que aquilo era uma parvoíce de criança… a parvoíce era eu… eu inteira. Hoje, a dar explicações a Alice, para Macau, percebo como fui abençoada por Deus, porque decidi ser parva e voltar a ser criança… começar o dia a dar cópias de poesia é para os loucos… loucos como eu, que gostam de ser felizes. À Vida, um eterno obrigada por poder ser feliz. <3

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Incba e Um Supermercado (Clipsera, Capítulo VIII, excerto)

E aqui fica mais uma passagem do nosso Clipsera… não resisto, é tão bonito. <3

 

Já sabem que podem receber a peça “inteiriça” por apenas 10 euros e eu ainda ofereço os próximos 5 capítulos. Vamos no 8º Capítulo! Não é lindo?

«(…)

Clipsera emociona-se por conhecer a voz que fala através dela, nesta narrativa que tanto lhe custa porque não é dela, não é do corpo… e eu que não acreditava em nada, eu, o narrador… Clipsera chora. Nós, ou eu, afagamos-lhe, ou afago-lhe, o cabelo, está crescida Clipsera, não sabe para onde vai, mas deixa-se ir, porque ao Céu pertence e à Terra também. É bonita esta história, não a que queremos contar, essa continua no segredo, no mistério da vontade do Pai, qual pai? Lá está Clipsera a intrometer-se na nossa conversa, na narração… não sabemos, mas dizia eu, é bonita a forma como Clipsera cresce… Continue reading

Incba e Estórias de Supermercado com Índios

VIII

Clipsera não demorou muito a desleixar-se novamente, mas isto é ela que pensa. Foram mais de 30 dias, 37 dias para sermos exatos sem voltar às viagens nem à escrita. A Clipsera muito custa este ato de escrever não o que lhe apetece, mas o que tem de ser escrito. Estamos muito felizes de ter novamente Clipsera connosco. É caso raro, por isso, vamos ter de aproveitar. Pois, bem assim, Clipsera conheceu um índio, um índio… não se sabe bem quem é, acaso de uma outra vida talvez, mas está sempre nela. A Clipsera este índio acompanha até na ida ao shopping. Não podemos deixar de contar que, aquando da última visita ao shopping, ao hipermercado queremos dizer, Incba, o índio de Clipsera, que não é nada dela, mas já a foi, esteve com ela… Incba ficou e está incumbido de ensinar Clipsera a ser feiticeira, a fazer coisas, bruxarias, eu diria… Continue reading

Código de atuação cívica em caso de Tristeza

Irrita-me tudo como uma coluna riscada, uma almofada de som estragada, esbaforida… Odeio tudo como antes. Sinto raiva. Ranjo o coração, mas já não ranjo a vida. Pergunto-lhe o que é que ela quer de mim, porquê que quer. Sou indigna como todos os outros, com toda a dignidade de Quem me fez. Não tenho projetos, só a pergunta essencial… Como ser feliz? Ser inteira. Mas ser inteira implica ser eu, ser sombra também, dias de chuva, de treva, de penumbra e de raiva que rebenta e arranha o peito. Estou farta de frases do mesmo, de clichés da autoajuda. Continue reading

Quando eu fui à livraria (o dogma do mesmo)

Hoje, fui a uma livraria e o espanto… o crime público… Nada de novo, os mesmos autores de sempre, as mesmas ideias, os mesmos textos, o mesmo aborrecimento… abro livros como um homem olha mulheres num bordel. Já comparei aqui uma livraria a um bordel onde as minhas putas são os livros… algo que me salve, algo que me relembre de quem sou, que me leve para casa, nem que seja só no momento da leitura… nada. Concluí que há só um livro que me salva, o meu… aquele que eu teimo em não escrever, em adiar, como se a inspiração ou o tempo me faltassem… nem um nem outro… o primeiro vive da minha dor interna, cortante, em segredo, o segundo é uma desculpa… só uma desculpa. Uma desculpa de muito trabalho, de muita coisa para fazer… tudo verdade… mas o que é que eu quero fazer de facto? Continue reading