Oração a Deo (de joelhos)

Que estranha forma de vida, esta de viver sem me pertencer, sem ser minha por completo… Nem por metade. Não sou minha… Sou de uma ilusão qualquer. Hoje, apetece-me sair, estar comigo, beber um copo, dois, fumar um cigarro se me apetecer… Mas não há ninguém para sair e a verdade é que, mesmo que houvesse, eu não queria sair com ninguém.

É de mim que eu tenho falta, de me ouvir a mim, de me lembrar a mim dos meus fantasmas, de saber de mim, do que me apoquenta, do que me tira a paz, do que me atira para quem sou.

Não sei quem sou… E isso dói como ferros quentes no coração… Estes de não me deixar viver, de não me deixar ser quem eu sou, de não me deixar viver à minha maneira, este de corresponder aos dogmas de uma sociedade que me atrofia o estômago, me mói, me molesta, me abusa… Que raio de terapeuta posso ser? A melhor, porque me acuso, porque me mostro sem carne, sem pele e à mercê. Quiero ser libre, vivir mi vida con quien yo quiera. Dios dame fuerza, que me estoy muriendo por irlo a buscar. É Chavela Vargas quem diz e sou eu que a ouço. Amo-me. Quero amar-me incondicionalmente, quero foder-me com todas as forças, ir ao fundo de mim, do animal que eu sou, para que a alma floresça, ela só aparece num corpo livre, numa matéria com espaço e eu não dou espaço a nada do que eu quero ser.

Sinto que saí de um dogma para entrar noutro. Sinto que saí de algo que me prendia para me prender de novo em algo mais certo, mais verdadeiro, mas nem por isso eu… Dói-me como ferros. Já disse. Quero ser livre. De mim. É o que me falta.

Que eu seja livre, meu Deus. Que eu possa responder e corresponder à promessa que te fiz… A de ser como tu és, como tu me criaste, que eu honre a tua filha em mim. Amo-te, meu pai. Não te sei falar de outra forma, a não ser a escrever. Aqui, eu tenho a certeza que tu me ouves. Aqui, tenho a certeza de que somos iguais, de que me posso desfazer em mil e de que tu me amas na mesma. Aqui, eu posso ser eu sem corresponder às estruturas… Porque me mandaste para aqui? Porquê que eu quis vir? Estava tão melhor no calor vazio de ti, no nada que é tudo… Porquê, meu pai?

Nas orações, a falar, preciso de intermediários, tu sabes… A falar sou profana, mas, aqui, aqui, só aqui, sou tua, sei de onde vim, restabeleço-me e subo à tua condição de filha, de tua filha livre. Pai, não me deixes fugir mais de mim. Ajuda-me a ser quem eu sou. Ajuda-me a amar-me incondicionalmente e a ser, de uma vez por todas, quem eu vim para ser. Estou farta de panos quentes. Amo-te, pai. Ajuda-me a ser Tu! Amo-te!

#ElasDoAvesso

Márcia Aires Augusto

Clipsera foi ao fundo da Terra – Os Ionis

Como já dissemos, a Clipsera muito custava voltar às viagens e às histórias que aqui os narradores querem contar. Clipsera não os entende, nem eles a entendem a ela, posto que, nem sempre é fácil contar o que acontece no espaço do que não vemos, no espaço da Visão, sem tempo nem lugar. Mas Clipsera iniciou agora mais uma viagem, desta vez na Terra, não sabemos se vamos ao céu, ou ao fundo da Terra, onde moram o magma, figuras contorcidas que nos sugam o mal para lá da “força”, para lá do que conseguimos suportar, é por isso que estamos na Terra, ela consegue  sugar-nos o mal. É o caso dos nossos amigos Ioni, chamam-se assim não sabemos porquê, moram no fundo da Terra, nas primeiras camadas de cima, quando começamos a perfurar a terra da Terra, e o mar também… é o que está abaixo… acaso já nos perguntamos o que acontece por de baixo da areia que está no fundo do mar? Achamos que é só areia e depois há uma esfera e o mundo acaba aí? Ora, façam-me um favor. Continue reading

Clipsera foi ao Egito – Clipsera em Arctus (Capítulo V)

Não estamos a brincar… Clipsera foi ao Egito, mas por obras e tramóias foi lá em cima e veio. Vejam, que é como quem diz, leiam… vale muito a pena!

Love, Márcia.

Capítulo V

(O início do capítulo)

Clipsera ia e vinha muitas vezes. Desta vez, tinha ido ao Egito, já não sabe se físico ou mental ou, sequer, qual dos dois é verdadeiro, pois que o mundo é mental, disso estava certa. Clipsera tinha estado nas pirâmides, vira-se dentro de uma, que girava, girava, girava… foi, então, que conheceu um faraó de pedra que lhe disse coisas ao ouvido… não sabe o nome, o que lhe importa?

Deves escutar a Verdade, disse-lhe. E sempre que ouvia “Verdade”, escutava Pocahontas ou a árvore, que lhe diziam Ouve o coração e vais entender.

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Sobre a Filosofia que É (a que serve para alguma coisa)

Este texto foi extraído de um post do Facebook do Elas do Avesso, mas gostei tanto dele que achei por bem publicá-lo.

O discurso começa com uma conversa que tive no caminho para casa, logo após o funeral do meu avô. Uma miúda perguntava-me se o que eu fazia não era Filosofia misturada com Psicologia (quem me conhece sabe que eu não gostava nada de Psicologia… lia os autores e tudo me soava a uma tentativa de engavetar humanos em paredes de comportamento). E diz assim:

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Para o meu avô

Deixo-te com as rosas e que voes com as aves. Seria uma maneira eugeniana de te dizer adeus. Mas tu não o leste. Tu não leste nada e soubeste amar cada pedaço do que eu escrevi. Nunca ninguém me amou tanto ou amou de forma tão abnegada e desinteressada tudo o que criei. Nesta forma aqui, em que te choro agora, em que aperto as lágrimas e fico vermelha em frente ao teu caixão… Onde pessoas me ignoram, outras olham com admiração e falta de perdão também.

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De um corpo no mundo

Dói-me tudo como no início, aperta-me o peito e eu só não sei de onde isto vem. Tentei tantos antídotos… todos, eu acredito… mas nenhum resultou como o amor e as palavras. Ontem aconteceu-me amar sem palavras… amar, comover-me com o mundo sem que quisesse as palavras… foi como viver, pela primeira vez, acima delas, das palavras… sabia que não iam chegar para eu dizer o que sentia… e também não me apeteceu correr atrás delas… foi como… se correr, se intelectualizar isto, eu vou perder isto, então mais vale Viver do que ser inteligente, do que colocar rótulos e predicados bonitos nas coisas… acordei com o peito a doer… ainda dói… mas vivo bem com ele… não me quero desfazer dele… em vez disso, sirvo-me dele… pergunto-lhe o que quer que eu escreva… e ele escreve… o que quer que eu ouça, e ele fala… acho que há dores de milhares de vidas em mim, mas, pela primeira vez, não tenho medo… quero vivê-las, saber quem são, o que são em mim, por que vieram… Continue reading

Se eu sou imortal

Às vezes, eu acho que quero uma desculpa para a dor no telemóvel… uma voz que me salve… falamos tão mal do além e não percebemos que é, de facto, o além, não esse, mas este da frase, que nos magoa… que nos engana… que nos manda para outro sítio qualquer, longe da paz, um lugar que não é nosso.

E se eu fosse imortal? E se eu sou imortal, por que escolho ver-me sob a folha volátil do corpo que adoece e que morre? Por que escolho ver-me como eu não sou, se o que eu sou é infinitamente melhor, mais bonito, mais potente e mesmo o superlativo de “mais” mente, porque não chega? E se eu fosse quem sou?

Se eu fosse imortal o que faria?

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Clipsera (Narciso, Platão e Pocahontas)

(…)

O que foi Narciso? O que foi? Espera aí… não me digas que ainda choras por causa dos Humanos…

Sim, os humanos são maus… levaram só uma ponta da história… agora tenho vergonha de mim…

Clipsera pensava… Narciso ia muito além do mito da paixão por si próprio, de só se ver a si próprio… a doença de nos identificarmos com um corpo, uma espécie de território mental que temos de proteger, levava-o à vergonha de si próprio, ao desejo de se esconder, de não querer ser visto, à sensação de desunião e de indignidade… como se os humanos fossem gozar com ele… Narciso temia a humilhação… que é o que teme o ego… a falta de aprovação dos outros ao ponto de se fazer sentir indigno, abaixo do que deveria ser e representar… Clipsera tinha de lhe mostrar que isso era insensato…

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Clipsera (início de um romance)

(…)

Abriu a porta… era uma porta normal, com a maçaneta gasta, baça pelos milénios… Deus não lhe dava para arranjar aquilo… tinha muito que fazer e, a bem dizer, a porta funcionava, abria quando queriam, entrar e Clipsera entrou.

(…)

… tinham asas e davam-lhe a mão e, às vezes, abraços. Clipsera, nesse dia, pediu para ir a outras galáxias… e viu um género de pessoas… verdes, não sabe… ou da cor humana, mas com formas diferentes… de nariz que era a boca e coisas assim, que agora não conseguia precisar – Clipsera não podia lembrar-se de tudo. Mas lembrava-se do mar… daquele mar… lilás, brilhante… imenso, cor de gelado de verão… tudo era cor de verão… as borboletas e os pássaros (esses não mudavam nas galáxias, ou Clipsera não sabia vê-los de outra forma) – seria o super-guerreiro lilás deste planeta? Pois que o mar era da cor da sua ausência de pele… não sabia. Poderia perguntar-lhe, quando ele voltasse… mas ele não era de muitas conversas… rachou o céu e só lhe disse uma frase, recordava-se.

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