Incba e Estórias de Supermercado com Índios

VIII

Clipsera não demorou muito a desleixar-se novamente, mas isto é ela que pensa. Foram mais de 30 dias, 37 dias para sermos exatos sem voltar às viagens nem à escrita. A Clipsera muito custa este ato de escrever não o que lhe apetece, mas o que tem de ser escrito. Estamos muito felizes de ter novamente Clipsera connosco. É caso raro, por isso, vamos ter de aproveitar. Pois, bem assim, Clipsera conheceu um índio, um índio… não se sabe bem quem é, acaso de uma outra vida talvez, mas está sempre nela. A Clipsera este índio acompanha até na ida ao shopping. Não podemos deixar de contar que, aquando da última visita ao shopping, ao hipermercado queremos dizer, Incba, o índio de Clipsera, que não é nada dela, mas já a foi, esteve com ela… Incba ficou e está incumbido de ensinar Clipsera a ser feiticeira, a fazer coisas, bruxarias, eu diria… Continue reading

Código de atuação cívica em caso de Tristeza

Irrita-me tudo como uma coluna riscada, uma almofada de som estragada, esbaforida… Odeio tudo como antes. Sinto raiva. Ranjo o coração, mas já não ranjo a vida. Pergunto-lhe o que é que ela quer de mim, porquê que quer. Sou indigna como todos os outros, com toda a dignidade de Quem me fez. Não tenho projetos, só a pergunta essencial… Como ser feliz? Ser inteira. Mas ser inteira implica ser eu, ser sombra também, dias de chuva, de treva, de penumbra e de raiva que rebenta e arranha o peito. Estou farta de frases do mesmo, de clichés da autoajuda. Continue reading

Quando eu fui à livraria (o dogma do mesmo)

Hoje, fui a uma livraria e o espanto… o crime público… Nada de novo, os mesmos autores de sempre, as mesmas ideias, os mesmos textos, o mesmo aborrecimento… abro livros como um homem olha mulheres num bordel. Já comparei aqui uma livraria a um bordel onde as minhas putas são os livros… algo que me salve, algo que me relembre de quem sou, que me leve para casa, nem que seja só no momento da leitura… nada. Concluí que há só um livro que me salva, o meu… aquele que eu teimo em não escrever, em adiar, como se a inspiração ou o tempo me faltassem… nem um nem outro… o primeiro vive da minha dor interna, cortante, em segredo, o segundo é uma desculpa… só uma desculpa. Uma desculpa de muito trabalho, de muita coisa para fazer… tudo verdade… mas o que é que eu quero fazer de facto? Continue reading

Que Grande terapeuta que eu Sou

(Continuação do “Quando eu fui à livraria (o dogma do mesmo)” )

Apercebi-me também de que já não escrevia há muito… achava que estava sem inspiração, já disse… mas, na verdade, faltava-me coragem para ser quem eu sou. Esta coisa de ser terapeuta tem muito que se lhe diga… muitos dogmas, muita merda para limpar… tenho um problema que, pelos vistos, é uma bênção… antes de terapeuta, sou escriba… preciso de escrever, preciso de me resolver no papel e acho uma grande cobardia e irresponsabilidade não partilhar isso com o outro. Já não mo permito. Acho mesmo necessário… acho mesmo importante que outros leiam e saibam que não estão sozinhos no coração que dói, na merda toda que os desassossega. Continue reading

O (meu) maior amor do mundo

Comove-me o queixo de uma gata, porque isso é ela estar viva. Comove-me, devolve-me a mim escrever só para mim, como no início de tudo… quando eu escrevia nos cadernos e eles iam para o lixo. Comove-me não me preocupar com a expressão perfeita, a expressão bonita, mas tão-somente o choro que corre quando escrevo. Comove-me estar viva.

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Clipsera – Bruxas em Sophia Hokmat. Uma estória de Toth

Sophia Hokmat era o nome de hoje… Clipsera desde cedo acordara com ânsias de qualquer coisa, quem sabe o que apetece a Clipsera? Clipsera acordou com vozes de um sonho, não sabe de quem nem o que lhe disse, mas algo a chamava para Toth. Temos de dizer que a figura humana com bico de pássaro, com que começa este livro é Toth, mas Clipsera ainda não sabia aquando do momento da primeira transcrição. Foi nas suas brincadeiras com as cartas, os livros dos mortos e outras estranhíssimas coisas que Clipsera estudava que foi dar com  Toth. Continue reading

Oração a Deo (de joelhos)

Que estranha forma de vida, esta de viver sem me pertencer, sem ser minha por completo… Nem por metade. Não sou minha… Sou de uma ilusão qualquer. Hoje, apetece-me sair, estar comigo, beber um copo, dois, fumar um cigarro se me apetecer… Mas não há ninguém para sair e a verdade é que, mesmo que houvesse, eu não queria sair com ninguém.

É de mim que eu tenho falta, de me ouvir a mim, de me lembrar a mim dos meus fantasmas, de saber de mim, do que me apoquenta, do que me tira a paz, do que me atira para quem sou.

Não sei quem sou… E isso dói como ferros quentes no coração… Estes de não me deixar viver, de não me deixar ser quem eu sou, de não me deixar viver à minha maneira, este de corresponder aos dogmas de uma sociedade que me atrofia o estômago, me mói, me molesta, me abusa… Que raio de terapeuta posso ser? A melhor, porque me acuso, porque me mostro sem carne, sem pele e à mercê. Quiero ser libre, vivir mi vida con quien yo quiera. Dios dame fuerza, que me estoy muriendo por irlo a buscar. É Chavela Vargas quem diz e sou eu que a ouço. Amo-me. Quero amar-me incondicionalmente, quero foder-me com todas as forças, ir ao fundo de mim, do animal que eu sou, para que a alma floresça, ela só aparece num corpo livre, numa matéria com espaço e eu não dou espaço a nada do que eu quero ser.

Sinto que saí de um dogma para entrar noutro. Sinto que saí de algo que me prendia para me prender de novo em algo mais certo, mais verdadeiro, mas nem por isso eu… Dói-me como ferros. Já disse. Quero ser livre. De mim. É o que me falta.

Que eu seja livre, meu Deus. Que eu possa responder e corresponder à promessa que te fiz… A de ser como tu és, como tu me criaste, que eu honre a tua filha em mim. Amo-te, meu pai. Não te sei falar de outra forma, a não ser a escrever. Aqui, eu tenho a certeza que tu me ouves. Aqui, tenho a certeza de que somos iguais, de que me posso desfazer em mil e de que tu me amas na mesma. Aqui, eu posso ser eu sem corresponder às estruturas… Porque me mandaste para aqui? Porquê que eu quis vir? Estava tão melhor no calor vazio de ti, no nada que é tudo… Porquê, meu pai?

Nas orações, a falar, preciso de intermediários, tu sabes… A falar sou profana, mas, aqui, aqui, só aqui, sou tua, sei de onde vim, restabeleço-me e subo à tua condição de filha, de tua filha livre. Pai, não me deixes fugir mais de mim. Ajuda-me a ser quem eu sou. Ajuda-me a amar-me incondicionalmente e a ser, de uma vez por todas, quem eu vim para ser. Estou farta de panos quentes. Amo-te, pai. Ajuda-me a ser Tu! Amo-te!

#ElasDoAvesso

Márcia Aires Augusto

Clipsera foi ao fundo da Terra – Os Ionis

Como já dissemos, a Clipsera muito custava voltar às viagens e às histórias que aqui os narradores querem contar. Clipsera não os entende, nem eles a entendem a ela, posto que, nem sempre é fácil contar o que acontece no espaço do que não vemos, no espaço da Visão, sem tempo nem lugar. Mas Clipsera iniciou agora mais uma viagem, desta vez na Terra, não sabemos se vamos ao céu, ou ao fundo da Terra, onde moram o magma, figuras contorcidas que nos sugam o mal para lá da “força”, para lá do que conseguimos suportar, é por isso que estamos na Terra, ela consegue  sugar-nos o mal. É o caso dos nossos amigos Ioni, chamam-se assim não sabemos porquê, moram no fundo da Terra, nas primeiras camadas de cima, quando começamos a perfurar a terra da Terra, e o mar também… é o que está abaixo… acaso já nos perguntamos o que acontece por de baixo da areia que está no fundo do mar? Achamos que é só areia e depois há uma esfera e o mundo acaba aí? Ora, façam-me um favor. Continue reading

Clipsera foi ao Egito – Clipsera em Arctus (Capítulo V)

Não estamos a brincar… Clipsera foi ao Egito, mas por obras e tramóias foi lá em cima e veio. Vejam, que é como quem diz, leiam… vale muito a pena!

Love, Márcia.

Capítulo V

(O início do capítulo)

Clipsera ia e vinha muitas vezes. Desta vez, tinha ido ao Egito, já não sabe se físico ou mental ou, sequer, qual dos dois é verdadeiro, pois que o mundo é mental, disso estava certa. Clipsera tinha estado nas pirâmides, vira-se dentro de uma, que girava, girava, girava… foi, então, que conheceu um faraó de pedra que lhe disse coisas ao ouvido… não sabe o nome, o que lhe importa?

Deves escutar a Verdade, disse-lhe. E sempre que ouvia “Verdade”, escutava Pocahontas ou a árvore, que lhe diziam Ouve o coração e vais entender.

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