Canção do Batom Vermelho

Hoje, eu passei batom vermelho, daquele que tu gostas e disse-me sim. Espero que estejas contente comigo como eu estou. Hoje, eu passei batom vermelho e disse não ao mundo. Disse-lhe que ele não manda mais em mim. Disse sim, pintei os pés e o tronco de prateado, como a liberdade, avó, e disse-me sim.

Espero que me ouças. O meu batom é exatamente igual ao teu. Quando o ponho, decido-me como tu, sem saltos e de chinelos, do alto da minha certeza que se chama coração. Hoje, ninguém me vai fazer mal, avó. Hoje, eu sou livre como tu me ensinaste.

Pus a camisa e saí de casa. Levo os papéis como tu me ensinaste e vou.

Hoje, não haverá mais márcia solitária. Também disse que amo. (…) Não sei se isto é real, mas estou a chorar e eu preciso de confiar nas minhas lágrimas. Elas são o mais espontâneo que tenho. Mais do que a gargalhada que aprendi a forçar no mundo. Com ele não, avó. Com esta vida que eu escolhi, não. Até já, céu. Vou decidir à terra convosco.

 

(…) E hoje também pus perfume de coco, daquele que eles dizem que é barato. Hoje, permiti-me ser quem sou. Barata para o mundo, preciosa para mim.

 

#ElasDoAvesso

#AMOR

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O Reis de Pessoa, O Reis de Saramago

Este é um texto feito a quatro mãos… mas ficou tão bom, que quis partilhar algumas partes… Parabéns à Catarina Figueiredo, aluna, que tanto prazer me deu ao poder ajudar na conceção deste trabalho.

“É, pois, também a experiência de um Reis revistado, um Reis pessoano em vida, que, claro está, não funcionaria enquanto homem. Podemos dizer que é com este Reis, que surge, de facto, o “drama em gente”, antes apenas “drama em mente” de Pessoa. Constata-se, pois, pela indiferença e, tantas vezes, sentido atónito de Reis face ao que vê ou vivencia, que a experiência estóica de Pessoa não chegaria para fazer face a este mundo de contrastes. Por outro lado, a educação latinizada e a intelectualidade morta também de nada servem ao mundo sem ação. Este é o Reis de Pessoa em contraste direto com o Reis de Saramago, que nos aparece num hotel e, se quisermos, nasce na bolha amniótica do quarto e da deambulação nas ruas. É lá que vemos o verdadeiro Reis, o Reis de Saramago.

(…)

Podemos, pois, ver que a deambulação geográfico-mental é um passeio com Saramago, que parece tomar-nos pela mão, qual criança de olhos vendados, a ver a cidade, o mundo e a literatura sob uma nova luz, interventiva, subversiva, nova, capaz de reinventar o que foi, desafiando-o, colocando as estacas e até as “palas” da nossa visão em causa. É um livro de abrir os olhos, de olhar e ver o que, à partida, não está lá. É um livro de subverter, é um livro de coragem – a coragem de levantar os “mortos”, os inexistentes, os inventados e até o que os que viveram, fizeram, pela luz de quem está vivo e muito lúcido sobre o que se passa (o narrador). É um livro de liberdade, a liberdade de dizer que Ricardo Reis pode viver, pode ser outro, assim como o mundo, o país, a sociedade, tudo pode ser “outro”, “outrado”, diria Pessoa no seu fenómeno de heteronímia, transformado, tornado novo, morto e ressuscitado para morrer novamente, a favor de uma nova epopeia, enquanto a terra espera, pelo menos, na literatura.”

Sobre “O Ano da Morte de Ricardo Reis”

Catarina Figueiredo e Márcia Augusto

in “Explicações ao Sábado de manhã”

#ElasDoAvesso

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A Liberdade do Recomeço

«A recomeçar»

«A liberdade do recomeço»

Liberdade de questionamento… sempre foi esse o meu propósito, a minha premissa de vida, o único caminho possível… questionar Deus, mas questionar sobretudo o que me rodeia… o que é dito… e o questionamento mais erudito e mais radical de todos, aquele a que teimamos não ceder ou tememos entrar… o de nós próprios… das nossas crenças, do que fazemos, porque fazemos… até, e sobretudo, daquilo que é mais sagrado para nós… meditação, Deus, tempo de reza, tempo de meditação… isto, porque noto que fiquei cativa de mais um mandamento… no fundo, saí de um, o das empresas, do mundo corporativo, para me meter noutro… o da espiritualidade… no fundo, o problema nunca foram as empresas, a educação, a espiritualidade… afinal, “conhecemos” Deus e continuamos cativos… onde está a besta? Dentro de nós próprios… há uns anos discursava sobre o primeiro livro… continuo a dizer o primeiro sem ainda ter lançado mais nenhum, tudo bem… e dizia que os “presos não estão nas cadeias, estavam naquela sala e nas ruas, cativos das suas próprias prisões mentais, das ideias”… dizia aquilo segura de mim e voltaria a cair no calabouço… tudo bem, faz parte… faz parte a alegria da libertação… mais um bocadinho, pelo menos… questionar Jesus Cristo, questionar Buda, a doutrina, os livros e os mandamentos…(* – nota abaixo)

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